Conceito e Expressão : dois séculos de pensamento e arte
Eliane Colchete
Livro produzido em 2009, trechos selecionados
I
A leitura
heideggeriana da história do pensamento parece inteiramente
circunscrita ao Ocidente. O Oriente surge na conversa com o
intelectual japonês, ou aqui e ali ao longo da obra, como um
horizonte de compreensão do ser. Logos, na acepção pré-socrática,
pode ser o Tao. "Linguagem" é algo intraduzível, mas eclode ou
floresce vindo... uma proveniência possível.
Sabe-se o destino
dessa história de obscurecimento do sentido da história. É a filosofia de Nietzsche onde,
conforme Heidegger, o esquecimento se torna total devido à irrupção e plenitude do cartesiano aguilhão da Vontade, que se auto-conceitua,
ilusoriamente, liberdade - leia-se a Subjetividade ocidentalizada
feita razão técnica, "tempos modernos".
O interessante nessa
leitura é que na origem, ainda que não se pretenda reduzir o humano
a um padrão cultural único que seria a gênese – creio que
Heidegger evita essa falácia pseudo-antropológica – Oriente e
Ocidente não aparecem como realidades distintas, mas há um
continuun de compreensão do ser que é, ele sim, oposto ao
esquecimento. Esse fiat depende ou se apóia na palavra guia
Logos que mantém com a linguagem uma relação constitutiva. O
Logos, como a linguagem, une o que assim unido pode ser desvelado,
surgir como a Verdade. O que o Logos reúne salva-se do esquecimento.
Mas o esquecimento em si também não é, por esse meio, esquecido.
Compreende-se a oportunidade do que vem ao encontro para ser unido no
Logos, comemorado na linguagem, não fixado como após a mutação
platônico-socrática, quando será designado Ideia.
O fim da filosofia
antiga assinala-se costumeiramente com Damacio, o neoplatônico que,
não obstante, se opõe ponto por ponto à filosofia de Proclo.
Brehier chega a afirmar que a “grande preocupação” de Damacio é
“destruir as categorias fixadas por Proclo, mostrar que elas não
encontram nenhum ponto de ancoragem no Parmênides”.
A chave dessa
controvérsia interior ao neoplatonismo e no entanto tão profunda
que torna duvidosa a visão costumeira do movimento plotiniano como
algo dotado de inquebrantável unidade, pode ser fornecida pelo termo
“ímpeto” que se maneja ao longo dos dois tomos sobre filosofia
antiga e medieval de Bréhier e que nesse momento se lê como
“iniciativa absoluta”, isto é, não causada, aquilo mesmo que
implica a postulação de algo irredutível inclusive ao Uno. O
inefável, em que reside esse ímpeto ou iniciativa que faz com que o
real ou o ser efetivamente seja, não se define como se o ímpeto
fosse criador ou causativo, uma vez não causado. O que Damacius
propõe é algo mais complexo.
É o Uno, realidade
derivada, não originária como o Inefável, que se define como
relação e função, sendo causa. É o Uno que compõe, como
estação, junto com a processão e o retorno, a tríade que conduz
do real puro à realidade do mundo incluindo o ser e o logos já
designado como inteligência ou ideia. O Inefável, porém, permanece
em tudo, no Uno, no Ser, na Vida, na Inteligência, nessa ordem, ou
seja, do que possui mais dele ao que possui menos. Ainda assim não
subsiste hierarquia no real, mais uma vez atestando-se a vocação
anti-Proclo de Damacio. O conceito de Inefável é feito bem a
propósito para não permitir qualquer talhe de mecanicismo
universal. O Inefável, realidade absoluta, é “impenetrável”,
esse dado de imponderável e insondável que todo existente possui.
O que liga a
problemática do neoplatonismo, ao sobrevirem os séculos obscuros da
dominação cristã, lembrando que Heidegger considera a expressão
“filosofia cristã” logicamente análoga a “círculo quadrado”,
à história do Ser, é o elemento da totalidade que subsiste mesmo
nessa conclusão já contaminada pela metafísica e pela romanidade -
conforme o enfoque heideggeriano - da evolução da filosofia antiga.
O Logos pré-socrático
lido à Heidegger como o Tao poderia bem figurar como essa vocação de um
pensamento da totalidade onde o “Ser”, em sentido heideggeriano
anti-platônico, está como o real anterior à divisão dos entes. É
o mesmo para o Inefável que Damacio faz substituir à mecânica
platônica dos limites funcionando por pares de opostos ou extremos
que exigem um termo determinante conforme o exemplo da díade do
infinitamente grande e do infinitamente pequeno à qual o número vem
limitar. Não pode haver uma dicotomia no Princípio, um par de
opostos gerador do real, pois nele tudo tem que estar Unido, devendo
ele mesmo ser concebido como União, todo, etc.
O retorno da
Filosofia, a meu ver, deveria ser localizado no século XIV. É com
Duns Scott que a problemática do pensamento se reinstala, pois será
recolocado em questão, de um modo novo, essa controvérsia de uma
visão de mundo que apela ao ímpeto, à iniciativa, à geração do
novo, e uma perspectiva do universo como um lugar eternamente já
ordenado e super-hierarquizado. O cristianismo de Duns Scott relaciona ambos pela introdução de um princípio subjetivo, com que a palavra do Cristo inicia a história da salvação entre o livre arbítrio e a livre escolha. Heidegger porém assinala apenas a mutação do platonismo.
As hostes angélicas
do cristianismo, com suas ordenações rigorosas de lugares, coincide
com os seres que Jâmblico e Proclo – inversamente ao intuito
original de Plotino – não param de multiplicar como objetos de
culto porque possíveis agentes num plano mágico, deuses, heróis,
daímons ... O intuito aqui, e nisso também em Plotino, é
desacreditar qualquer veleidade de explicação natural do mundo, mas
apenas por um outro mecanicismo, sobrenatural. Já o que
verdadeiramente se poderia contrapor como o que separa do Oriente
algo como um Ocidente, não seria o inverso dessa tendência, isto é,
o despontar de um apelo, o apelo pelo ímpeto e pelo novo, por aquilo
que somente com Duns Scott se conceituou nesse contexto mais precisamente como
Vontade?
A complexidade do que
está em jogo já se pode ver nisso pelo que não se conceitua tão
adequadamente algo que já estava nos inícios. A Vontade só pode
nomear o ímpeto e a iniciativa, inversamente à subordinação estoica à natureza, quando se trata da emergência
daquilo que permaneceu na Antiguidade como um limite, a saber, a
Subjetividade, o pensamento como apanágio do sujeito, nele e por
ele centrado.
Heidegger não aponta
realmente um início da filosofia, senão que ela reside desde sempre
na palavra do poeta, tanto quanto dos pensadores tendo na Grécia pré-socrática os pioneiros, enquanto o
conhecimento secreto de que todo desvelar contém um encobrir e isso conotado costumeiramente como o inverso do Oriente faraônico ou em
todo caso “celestialmente” imperial, onde tudo é inteiramente
ordenado, hierarquizado, dado sob um caráter de ideia ou tipo. O
confucionismo só fez estender essa Ordem à sociedade dispensando a
mediação do déspota divino, interiorizando a etiqueta, por assim
expressar. A reflexão da ordem do céu é o que almeja tanto aquele que se retira quietamente na contemplação como aquele que se dedica aos negócios da casa e do Estado.
Mas a compreensão do
Ser heideggeriano, paradoxalmente, parece um retorno a esse mesmo
espírito. O ponto de ataque de Heidegger à metafísica se lança na
decalagem cuidadosamente conceituada entre esse anelo pela visão de
uma totalidade que é Ser anteriormente a tudo o que já veio a ser,
e a concepção de que nessa totalidade já se dispôs todo vir a ser
conforme o que deveio. Inversamente, a leitura do Oriente
disponibilizada no Ocidente desde o poderoso avanço das ciências do
humano e da internacionalização da técnica, permitia mesmo nos
anos trinta e quarenta compreender que o Tao não se preconiza como o
conceito de um ser platônico, mas abrange o colocar-se do ente
naquilo em que ele se revela no acontecimento de ser. Anterioridade e
totalidade se apelam mutuamente, mas, inversamente ao que se costuma
entender por Oriente ou pelo pensamento que nega o ímpeto e a
iniciativa em prol desse mesmo par de conceitos, em nome da Liberdade
autêntica cuja reserva se recolhe na afirmação mais radical do
Nada como aquilo que poderia ser dado como predeterminação do Ser.
Sabe-se que Duns Scott
lançou o seu voluntarismo por uma operação igualmente radical de
reversão completa dos quadros da metafísica medieval. Até aqui
tratava-se de explicar a individuação tendo como premissas a
distinção capital de forma e matéria, espécie e indivíduo. Ora a
matéria possuía uma disposição à forma, as razões seminais nela
ínsitas, ora a forma devia ser imposta num receptáculo
completamente passivo ou potencial, conforme a polêmica de
agostinianos e tomistas. Duns Scott torna a individualidade
independente, um terceiro termo tão determinado como os outros dois,
sendo que o laço que une a todos permanece contingente, descontínuo.
A filosofia renasce,
conforme Bréhier, sob esse signo da descontinuidade contra séculos
de perpetuação dos discursos de justificação de uma continuidade
ou plenitude do mundo onde a polêmica podia ser apenas entre um
mecanicismo natural ou sobrenatural, isto é, entre o peripatetismo e
o neoplatonismo. Mas não se poderia propor que assim também ela
veio a ser, quando a uma ordem da Physis e a uma vontade de captá-la
num Logos se substituiu a independência do Nomos com as escolas
sofísticas?
Assim torna-se
interessante o desenvolvimento do pensamento, de Duns Scottus a
Mestre Eckart. E isso tanto mais que à negação mística da
individualidade, de Eckart, se junta a afirmação de uma união
espiritual com um Deus que se concebe como totalidade ou unidade
prévia a qualquer distinção dos entes. Aqui já se aponta aquele
importante liame da expressão que constituirá a originalidade da
filosofia de Spinoza, conservada ainda assim pois trata-se lá de uma
doutrina que abrange a multiplicidade de atributos. Aqui, Deus (pai)
se expressa através do que ele cria (filho, Verbo ou palavra de
Deus).
Nessa concepção
mística a linguagem, como o Logos heideggeriano, é expressão no
sentido de unidade. O verbo expressa, ou seja, manifesta o que
expressa, sendo o mesmo que o expresso, havendo agora sim relação assinalável com o estoicismo. Heidegger verá a compreensão
desse manifestar não apenas como de um funcionamento extrínseco
àquilo que é expresso, mas como o que reúne aquilo mesmo que vem à
expressão. Já o renascimento da filosofia no declínio da dominação
cristã pela emergência do Estado nacional leigo se demarca pela
emergência do nominalismo. Ora, desde Roscelino, bem antes do século
XIV, a questão nominalista envolve uma noção de linguagem que
separa. É assim que começa a crítica ao peripatetismo e à visão
continuísta do cosmos, desde Duns Scottus.
A substância e a
causalidade, assim como a definição, o universal, residem, sim, na
linguagem, do mesmo modo que as categorias se tornam concebidas e
estudadas ao modo de classes gramaticais, não como realidades
inerentes às coisas. É a linguagem que separa o branco do corpo
branco, o ser homem de Sócrates. Esse separar, portanto, é
curiosamente como o unir heideggeriano, pois traz ao revelar o que se
torna revelável na proposição de que Sócrates é homem ou que
alguma coisa é branca. Mas Heidegger parece supor que isso continua
sendo uma revelação do Ser, não dos entes, enquanto estes somente
vêm a ser uma vez desvelados na linguagem que tendo separado certos
atributos, uniu uma concepção do que é atribuível ou postulável.
Enquanto que o aí do ser é o que antecipa o revelar na sua relação
com o ocultar desuniversalizando, por assim expressar, as categorias
e as classes lógicas. Já para o nominalismo, como para Duns Scottus
se bem que num outro viés, trata-se de notar que nada do Ser se
tornou assim disponibilizado, e sim tão somente da linguagem. Surge
daí aquela concepção tão peculiar a esse interregno renascentista ou pré-moderno,
pelo qual tudo poderia ser de outro modo, havendo aquele limite
intransponível para toda luz natural, na fórmula de Mestre Eckart,
onde a razão não alcança e onde age somente a fé, na fórmula dos
nominalistas.
O que não impede que
se possa afirmar o renascimento da filosofia desde que o limite da
linguagem demarca também os contornos epistemológicos do momento,
isto é, aquilo que se dá a pensar. Desde Duns Scottus o enunciado
das questões resvala para uma psicologia travestida de metafísica.
Trata-se de determinar o que é que atingimos de fato para sobrepor o
funcionamento das classes linguísticas, que então se compreende em
termos de categorias lógicas.
As teorias do
percebido devem explicar também como o ser se dá a conhecer não
supondo-se a continuidade que era o apanágio da escolástica e da
ontologia do peripatetismo platonizado. Por aí a subversão
escotista da doutrina do intelecto. Na escolástica, e conforme a
cisão aristotélica, é o intelecto agente que se torna o móvel do
conhecimento, separando a forma da imagem sensível. Assim, a
polêmica medieval, tanto europeia quanto na filosofia árabe, era
até então como conceber esse intelecto que parece transcender o
limite do indivíduo onde só cabe o intelecto possível, passivo,
que encadeia na experiência sensível as formas separadas como tais
pelo agente. Com Duns Scottus é o intelecto passivo ou possível que
se torna o móvel do conhecimento, pois concebido como o que produz o
ato de compreender efetivamente o real. Mas com isso também se
descarta a tese oposta àquela da escolástica de inspiração
peripatética, a saber, a doutrina "iluminista" dos augustinianos que
exigia para qualquer ato cognitivo, de intelecção pura ou de
compreensão da experiência, a intervenção da iluminação
divina.
A cisão no interior
do neoplatonismo antigo parece atravessar o pensamento medieval
naquilo em que este não pode deixar de confrontar o limite que é o
seu e para o qual tende desde os inícios. São, pois, duas teologias
teocêntricas que assinalam o contorno dessa situação de uma Europa
profundamente fragmentada desde o declínio do Império romano.
Bréhier o especifica admiravelmente tratando do pensamento de santo
Anselmo.
O cristianismo
introduziu com o drama da redenção uma descontinuidade voluntarista
no universo sem história, eterno e invariável do neoplatonismo
antigo ou ao menos na imagem dominante que dele restou, o plotiniano.
O ressurgimento da filosofia no século XIV parece estar ligado a um
novo modo de lidar com esse dilema, quando os textos são mais
conhecidos e o elemento voluntarista pode descartar drama e dogma em
proveito de uma liberação da razão, do conhecimento, tanto quanto
da subjetividade. Assim, por um lado, Duns Scott situa a vontade na
imanência desse “sujeito” autonomizado que parece prefigurar a
possibilidade da noção individual leibniziana. Mas também Mestre
Eckart, justo ao se descartar do problema da individualidade,
negando-a como algo meramente circunstancial, ou seja, exterior à
realidade autêntica que é o tudo unido em Deus, concebe a produção
do real por Deus, ao modo de expressão, como uma causalidade
imanente tornando o seu misticismo totalmente independente de
qualquer motivo do drama da paixão que sustentava, com Santo Anselmo
e sua concepção da necessidade do sacrifício do Cristo, a teologia
voluntarista.
O interregno moderno
que se estende dos séculos XVII ao XIX tornou essa via da
subjetividade suficientemente fundada a ponto do romantismo ser
geralmente considerado como o clímax desse processo, uma liberação
total da iniciativa, do ímpeto e do subjetivo. Paradoxalmente o
Oriente romântico torna-se ele mesmo o exótico horizonte dessa
iniciativa do sujeito aventureiro, não guardando qualquer preceito
de sua imutabilidade original, inversamente, sendo o que se estende
para a conquista ou a intervenção do herói civilizador.
2
A idealidade
romântica, isso que tem sido considerado de modo o mais banal pelo
viés do seu contraste óbvio com o materialismo realista, é na
verdade algo muito surpreendente se adequadamente localizado no
contexto de sua subsequência ao interregno clássico.
Nesse intervalo,
abrangendo os séculos XVII e XVIII, nada mais oportuno do que
considerar o pensamento de Malebranche. A vantagem é que essa
filosofia teológica, parecendo tão decididamente na contramão do
tempo, na realidade confirma a tese foucaultiana de um a priori
epistemológico. Mas também esmaece os traços mais pesados da
descontinuidade histórica. Já Bréhier procura suavizá-la inversamente a Foucault, ao
mostrar que o grande empreendimento cartesiano de tornar irredutíveis
os sentidos e o intelecto inscreve-se bem na tradição augustiniana
representada tipicamente por São Boaventura. As teorias
malebranchistas das causas ocasionais e da visão em Deus, porém,
acrescentam aquilo que, já presente no cartesianismo, recoloca toda
a problemática medieval num contexto novo. Trata-se de um pensamento
que inscreve a própria descontinuidade da revelação, da
intervenção de uma subjetividade absoluta no mundo que a
Antiguidade havia suposto eterno e imutável, num continuun
de Ordem igualmente eterna e imutável.
Aliás o esmaecimento
da descontinuidade deve ser equacionada desde que se recorde ser essa
a época do formulário anticartesiano, quando para cursar a
universidade era preciso assinar um termo de compromisso com
Aristóteles contra Descartes. Um pouco mais tarde essa polêmica
torna-se sem sentido, uma vez que a física de Newton triunfa sobre
os turbilhões cartesianos, Aristóteles é cada vez mais considerado
apenas na perspectiva de seus tratados éticos e políticos, como já
instava Nicolas d'Autrecourt – a que a modernidade acrescentou o
interesse pelos escritos de estética, lógica e retórica - e em
geral os sistemas de ensino nacionais se tornam completamente
independentes dos dogmas da Igreja. Mas o interesse eclesiástico
pela manutenção da física peripatética conserva um papel de
esclarecimento acerca da incomensurabilidade do todo dos saberes
medieval e moderno.
A cisão no interior
do pensamento medieval está na contradição entre a necessidade de
assegurar um Deus racional a que toda ordem do mundo deve ser
atribuída, de modo a inviabilizar a veleidade humana sobre o seu
próprio destino e sobre o curso das coisas políticas assim como
naturais, e a evidência de que o conceito de um Deus onipotente é
antitético àquele de um mundo ordenado por razões eternamente
certas e imutáveis independentes do acordo ou da iniciativa humana.
Assim pode-se considerar, por exemplo, a originalidade do atomismo
medieval em relação ao antigo. Com Demócrito, Lucrécio e Epicuro,
o atomismo é um modo de se liberar das superstições e da crença
na intervenção sobrenatural no curso dos eventos. Com a filosofia
árabe da escola de Achari, trata-se de professar o atomismo para
inviabilizar a continuidade da substância, ou seja, para afirmar a
produção das coisas por Deus de modo inteiramente livre,
exclusivamente conforme sua vontade, não apenas no momento inicial,
mas no decorrer do tempo. Os átomos se tornam a matéria plástica
de que Deus se serve à vontade para criar as formas que deseja
quando lhe aprouver. Não subsiste qualquer necessidade inerente às
propriedades dos átomos, todos sendo idênticos e do mesmo modo
manipulados por Deus que a cada instante cria o que vem a existir e
decide sobre o que deve ou não permanecer existindo.
Guilherme de Conches e
Nicolas d'Autrecourt são representantes no Ocidente dessa física
corpuscular medieval. Compreende-se o contraste dessa colocação em
relação ao intuito tomista de estabelecer um mundo inteiramente
ordenado e contínuo, ainda que por um Deus igualmente onipotente. Já
do ponto de vista epistemológico, na Idade Média e no Renascimento
a questão da intelecção das formas se propõe na condição de
exterioridade de um sujeito que é ele mesmo forma, alma ou essência,
em relação ao meio das formas, o horizonte de transcendentalidade
da época sendo Deus.
Deus é o meio das
formas, o mundo e a experiência são contingentes na medida em que
neles se dá o encontro da razão humana com aquilo que a encobre, a
corporalidade e os acidentes da matéria. O sujeito enquanto
corporificado participa desse encobrimento, portanto, o mundo naquilo
que tem de criação de Deus ou ordenação pura lhe é estrangeiro,
externo. Mas isso duplamente, pois sendo essencialmente alma, a
corporalidade própria e a contingência do mundo lhe são também
estranhos. Tudo supõe a via da interioridade, o claustro, a
renúncia dos sentidos em favor do intelecto puro. Mesmo para este,
enquanto essência, subsiste a diferença de natureza em relação às
outras essências. Mas a aspiração a justificar a criação e
conciliar onipotência, iniciativa e ordem, conduziram
gradativamente, desde a Escolástica, a aprofundar a via da
continuidade em favor dos sentidos. Continuidade puramente natural,
portanto, descontinuidade somente entre fé e razão, o exercício
desta concebendo-se numa relação básica com a percepção, não
numa antinomia. Finda assim a medievalidade.
Ora, a Idade Moderna
descobre o Eu como o meio das formas. É a natureza da Ideia que
mantém o vínculo da transcendentalidade enquanto sua garantia
permanece sendo a origem em Deus. No entanto, as ideias, inatas ou
não, só podem ser concebidas, compreendidas e afirmadas, na
dependência da subjetividade. Mas o problema se torna agora a desse
conhecimento inautêntico, primeiro gênero de Spinoza, o obscuro e
confuso cartesiano, e o conhecimento de nós mesmos em Malebranche na
medida em que todo conhecimento certo se restringe à idealidade
matemática, extensão e número, inversamente ao conhecimento que a
alma possui de si mesma afirmado por Descartes.
Utilizando a
referência de Leibniz, a operação moderna se torna bem
exemplificada. O problema da conciliação entre Ordenação eterna
do mundo – já agora pelo ideal do saber clássico não podendo ser
contraditada, não podendo ser de outro modo – e a onipotência de Deus, se resolve ao localizar-se
o acordo entre as ideias na definição mesma dos indivíduos. A
compossibilidade é subjetivada, ou seja, um mundo, logo, uma
ordenação perfeita, só subsiste na medida em que os acontecimentos
que definem os indivíduos que o compõem são logicamente
conciliáveis, isto é, compatíveis. Deus pode criar quantos mundos
possíveis desejar, mas em cada mundo a Ordem é intrínseca. Na
época clássica chega mesmo a ser pleonástica a expressão “mundo
inteira e eternamente ordenado”.
Bréhier não deixa de
assinalar uma relação fundamental entre a impossibilidade crescente
na Idade Média de manter platonismo, aristotelismo, experiência,
matemáticas e filosofias antigas como forças co-partícipies no
sistema de pensamento cristão, e a impossibilidade de manter a
unidade política da cristandade. A representação do mundo se
transforma concomitantemente à imagem da sociedade, desde a
universalidade medieval ao fracionamento das nacionalidades modernas.
Mas o absolutismo que suporta essa transposição precisa, ainda
mais do que o papado, da ideia de Ordem inquestionável e sempiterna
que corresponde a uma unidade profunda, aquela da natureza.
Ora, a igreja se
esforça por manter a prerrogativa dos seus dogmas, mesmo no ambiente
do Estado absolutista, pelo que não está destituída de importância
a corrente augustiniana moderna que se constitui integrando os temas
candentes dos novos tempos. É assim que tem se sustentado
correntemente o cartesianismo de Malebranche, e Bréhier também
afirma a conexão entre vida religiosa e filosofia, nesse momento
histórico, com base numa “certa afinidade entre augustinismo e
cartesianismo”. O já mencionado ater-se ao intelecto contra a
participação dos sentidos na cognição autêntica conduz em ambos
os casos a “um tipo de ascese que isola o espírito do mundo
sensível para deixá-lo em face de Deus e de si mesmo”.
Mas a independência
espiritual que inspira o cartesianismo não poderia deixar de ser
mais oposta ao intuito augustiniano, e por aí a negação
malebranchista da tese cara à Descartes de que o homem tem uma ideia
clara de Deus e de sua própria alma, como também sua rejeição da
harmonia pré-estabelecida de Leibniz. O que torna o pensamento mesmo
de Malebranche uma empresa algo barroca, pois seu objeto não é a
extensão ou o número, isso de que somente ele aceita podermos ter
ideias claras e distintas, mas justamente a alma e suas faculdades de
intelecção (entendimento) e vontade (inclinação).
Já livre do drama da
redenção, o universo se torna, como em Descartes, realidade
derivada de uma razão que age com método mas segundo sua iniciativa
intrínseca, física e teologia devidamente irredutíveis. A
iniciativa é agora una com o método, não significando o capricho
de uma vontade cega. Como inserir nessa ordenação sem nódoa, o
dogma do pecado original? Malebranche estabelece uma linha de
demarcação entre duas naturezas, ou mais precisamente, entre duas
possibilidades da natureza humana, antes e depois da queda.
Naturalmente dotado de um intelecto independente dos sentidos, como
de uma alma capaz de assujeitar o corpo, Adão depois do pecado se
torna, inversamente, dependente dos sentidos e do corpo. As duas
faculdades da alma o comprovam, pois no atual não ocorre intelecção
sem imagens oriundas do mundo sensível, nem inclinação da vontade
sem paixões do corpo. Mesmo que não se tenha diretamente ideia da
alma, podemos inferir que Deus não poderia lhe dar impulsão diversa
de uma aspiração à ordem universal, “o desejo da beatitude
formal” como aptidão a “amar o bem”. O amor que temos por nós
mesmos é esse impulso à perfeição do nosso ser, testemunhando
essa impulsão dada ao nosso ser por Deus. Em vez do desinteresse que
poderia ser sugerido como apanágio do apego a Deus, Malebranche
afirma que o amor que temos por Deus se enraíza no amor que temos
por nós mesmos.
O principal da
corrente augustiniano-moderna é esse intelectualismo da visão em
Deus. Todos os temas pensáveis devem remeter a Deus, conforme André
Martin. É a doutrina do Verbo, sustentada também por Malebranche. A
inteligência ou razão é o Filho, palavra ou Verbo de Deus.
Malebranche pensa que as ideias claras são as gerais, como a ideia
de infinito é a mais geral em relação a qualquer dado que apareça
como parte finita na extensão. Aceitando que conhecemos o todo
anteriormente às partes, e estabelecendo as ideias gerais como
arquétipos que estão em Deus, Malebranche enuncia a tese moderna da
antiga concepção teo-epistêmica do conhecimento como dependendo da
visão em Deus.
A unidade que vimos se
estabelecer entre razão produtora ou iniciativa, e método ou
intelecto, completa a doutrina do Verbo, o conhecimento da alma
tornando-se possível por analogia com a extensão. A causa ocasional
de Malebranche se opõe à causalidade natural, imanente, de
Aristóteles. O ocasionalismo opera com uma causa transcendente,
reafirmando a onipotência de Deus, como vimos ser o apanágio da
teologia cristã. Ora, se a causa ocasional afirma que todos os
acontecimentos dependem da intervenção de Deus, não de si mesmos
ou de seu próprio encadeamento, de modo que se quero mover meu braço a causa que o torna possível é Deus que age por meio da minha vontade, ainda assim Malebranche irá
sustentar que o agente supremo age por Ordem, o “amor invencível”
de Deus sendo pela ordem. Assim a ocasião, aí onde o que se tem é
o fortuito e o contingente, subsiste como o complexo de variáveis de
uma função matemática em relação à necessidade e estabilidade
da relação que ela estabelece.
O interessante no
contraste entre a era clássica e o romantismo, já no período contemporâneo, é o que ocorre com
esse intuito de sobrepor o drama histórico da redenção, assim como
o intelectualismo, oriundos como vimos do declínio da Idade Média,
num cenário em que o cristianismo não só não foi abandonado, mas
atuou como uma espécie de senha ou equivalência de toda a
pluralidade de credos e tradições que se amontoavam nas estantes do
saber à medida em que iam se constituindo as referências do que
mais tarde se organizou nas regiões de antropologia, história e
sociologia.
É o surgimento do
tema do “Devir de Deus”, como no misticismo de Schelling. Assim
como a natureza da Ideia não mais se propõe de modo instantâneo,
mas como tudo o que vem a ser supõe a história do seu ser vindo de
um não ser, supõe o desenvolvimento do espírito, também Deus deve
ter vindo de um não-ser, germe primitivo ou primeira potência, e
atingido o ser, conforme sua segunda potência, após o que reúnem-se
o ser e o não-ser conforme a terceira potência. A rotação entre
as três potências poderia assinalar um assujeitamento de Deus ao
destino ou à natureza, de fato a circulação entre as três
potências sendo um conceito que Schelling utilizou na fase mais
inicial de sua filosofia, nitidamente contrastante com a fase
místico-teológica, aplicando-o à natureza. A circulação é a
mesma que vemos do grão à planta e depois da planta ao grão. Mas
Deus não poderia sujeitar-se a essa roda do destino e Schelling
afirma a liberação desse encadeamento por meio da renúncia em
favor de uma vontade superior, aquela que nada deseja, que não visa
nenhuma forma de ser ou não-ser. É assim que Deus está acima de
toda forma, “acima de toda diferença”, conforme Bréhier.
Uebergottheit, uma sobre-divindade, é o estado de liberdade
suprema atingido por Deus em seu devir que assim se completa. Uma vez
completo o devir de Deus, começa o devir do Universo onde as
potências, liberadas pela renúncia, se tornam matéria da criação:
natureza, espírito, alma do mundo.
O tema importante aqui
é sem dúvida o desenvolvimento. O drama cristão se torna
arquetípico do devir do mundo porque subentende, como em Hegel, um
ser em si mas imanifesto, um exteriorizar de si que é distanciar-se, e um retorno a si, já manifesto. Contudo, o que se
deve incluir ao examiná-lo é a oposição inerente à ambição do
pós-kantismo, aquela tipificada pela via místico-panteísta de
Schelling e aquela inaugurada por Fichte onde a preocupação
fundamental é com a natureza da autoconsciência ou Eu. Assim, em
Hegel, o devir do mundo é exemplar desse momento, pois ao mesmo
tempo que abrange espírito e natureza, se mostra como
desenvolvimento desde o puro natural até a autoconsciência.
Ao descrever os
“sistemas aparentados a Schelling”, Bréhier mostra como nasce
dessa noção fundamental de desenvolvimento, eixo da episteme do
século XIX, o conceito de inconsciente. Carus o postula como uma
região da alma que estaria na origem dos fenômenos conscientes. A
questão, para ele, seria atingir o momento de emergência da
consciência, com esse intuito antecipando momentos ou graus, como o
sentimento de si que quase não se distingue do objeto designado,
Weltbewusstsein ou consciência não separada do mundo. Esse
sentimento mais básico se desenvolve pela concentração de
impressões devido à ação do sistema nervoso, o afluxo de
impressões vindas do mundo exterior e a consolidação pela memória.
O que se repete nos
autores visados, Kerner, Steffens, Baader, é aquilo que se torna bem
representado na teoria da ironia trágica de Solger. O anseio maior é
pela negação daquilo que foi conquistado sob o nome de classicismo,
ao longo do esforço por combater a ingerência da teologia, desde a
baixa idade média, de que nasceu o empirismo. Trata-se agora de
tornar a conceber o mundo como revelação de Deus, os fenômenos
como expressões de Deus, e a individualidade – bem inversamente ao
famoso individualismo romântico – como um nada.
Uma vez que a ideia se
tornou conciliável com o desenvolvimento, não há problemas para
manter esse misticismo no âmbito de uma intensa atividade de
descoberta da alteridade por meio da expansão internacional do
capitalismo. Mas sem dúvida há uma opacidade do elemento material à
união completa com a ideia, razão pela qual a arte, a religião e a
moralidade são ao mesmo tempo, como reza a fórmula da ironia
romântica, revelações e negações de Deus.
O deslocamento do
individualismo como algo que poderia efetivamente definir o eixo de
gravidade do romantismo deve, porém, ser bem compreendido para
evitar a confusão desse retorno ao espírito medieval de que tanto
se faz alarde como um real comprometimento com o teocentrismo de
índole feudal. Quanto a isso, seria bom observar a definição
fornecida por Novalis: “A essência do
romantismo é tornar absoluto, universalizar e classificar o momento
individual ou a situação individual. Eis porque o romance, o conto,
o poema, adquirem um valor filosófico.” Não pelo viés da
teologia, mas sim do liame entre arte e filosofia é que se pode
compreender o misticismo romântico. Hölderlin vê nesse nexo o
sentido mesmo da filosofia, pois tendo a poesia como seu horizonte,
neste ela encontra a síntese dos sistemas que só pode formular como
incompatíveis. Mesma crítica da dispersão e do atomismo
gnoseológico caro ao empirismo iluminista em Novalis, que para
manejá-la se vale do criticismo kantiano onde as cisões, ainda que
no mais interior da alma como faculdades distintas, são conciliadas
pela unidade do espírito.
O essencial nessa
atitude é o seguinte. A era romântica, início da contemporaneidade, se determina pela descoberta
do transcendental. Isso, porém, não conduz ao mesmo colocar-se da
subjetividade como meio das formas, o que vimos ser a operação da
época clássica. Mas sim a essa identidade ou universalidade
enunciada por Kant em termos de uma “arte oculta” nas profundezas
do espírito. Não mais uma alma, uma forma separada que tem por
atributo a faculdade de separar formas que lhe são extrínsecas, a
subjetividade é agora um complexo não apenas no sentido de ser algo
múltiplo, uma estrutura que comporta diferentes níveis e funções,
mas também algo que devém, que se desenvolve. Algo que parece se
tornar cada vez mais um mero postulado sugerido pelo mesmo viés
inautêntico da exteriorização, do estar “frente a”, que parece
subsumir toda experiência e empiricidade, mas que sabe-se ser apenas
um momento no vir a ser de algo mais fundamental, o anelo pela
manifesta unidade. Também Hölderlin preconiza o desenvolvimento em
três estágios, harmonia inicial ou união originária dos
espíritos, natureza ou dispersão, retorno à harmonia pela
realização do sentimento da vida e do ser, paz que é “honneur”
dos deuses e que expressa a maturação do amor pela existência .
Ora, o que realiza o
sentimento é a descoberta daquilo mesmo que cria a realidade que
aparece para nós como algo de exterior, a “magia inconsciente”
na fórmula de Bréhier que esclarece também o pensamento de Fichte,
por cujo sortilégio o mundo surge como algo independente do espírito
que o produz. A arte e a mística serão os meios pelos quais,
conforme Bréhier “essa magia deve se tornar consciente e
voluntária”.
É interessante que
Benjamin tenha progressivamente renunciado à sua ideia de investir o
tema das relações entre a crítica romântica e a estética
kantiana. Mas isso porque preferiu se ater aos princípios
filosóficos dessa crítica, ou seja, compreendendo-a cada vez mais
como algo que envolve uma originalidade conceitual. Já Bréhier
enfatiza a centralidade de Kant no movimento de ideias romântico,
tendo o combate à dispersão e ao espírito de enciclopédia, em
nome de uma unidade que é espírito e se concebe acima tanto dos
sentidos quanto da razão na acepção de entendimento, encontrado
sua fonte e fomento na noção kantiana de síntese. Esse criticismo
kantiano é “superior”, conforme Novalis, por não se tratar de
um ecletismo ciceroniano, uma justaposição ou uma escolha, mas sim incluir toda
a realidade ao fazê-la “comunicar”. Vemos como a noção de
desenvolvimento e encadeamento de múltiplos fatores é essencial à
concepção romântica, em que se produz um novo sentido de ecletismo, como desenvolvimento dos sistemas filosóficos num devir imanente ao espírito.
O liame com o kantismo
parece residir, portanto, menos na estética enquanto uma teoria do
belo do que na estética transcendental que enuncia o mundo como
produto da magia inconsciente do espírito. Em todo caso, Benjamin
saúda na filosofia de Schlegel a descoberta da reflexão como
movimento infinito, tendo, assim como Novalis, colocado a arte como
“meio de reflexão”, em vez da subjetividade, nisso opondo-se a
Fichte.
E nesse enfoque
podemos localizar a subversão dos gêneros no romantismo. Sabe-se
que o romantismo atuou o clímax da história dessa subversão que
começa no Renascimento e assinala a independência, como crescente
conquista, do artista frente à crítica. Não somente os gêneros
que a metalinguagem recalcava na estipulação de sua hierarquia
rígida vinham sendo cada vez mais praticados e valorizados pelos
artistas, como os gêneros cômicos na Renascença, mas também se
procedia a mesclas progressivamente mais provocadoras de modo a
culminar o romance como uma síntese de gêneros e à crítica
cabendo apenas renovar-se perante a prática criadora do artista.
Benjamin relaciona
esse tema à problemática da essência, da ideia da arte na crítica
romântica. A reflexão sugere o nexo entre o uno e o múltiplo, o
que se reflete e a infinidade do horizonte de reflexão. Mas se a
arte, não a subjetividade, se põe no núcleo de reflexão, não se
trata de supor os gêneros como refletindo esse núcleo permanente
que se deveria então tratar de definir. O universo romântico
semelha mais um “mundo de espelhos e contra-espelhos” como na
fórmula de Carpeaux. O que parece dever solver-se inapelavelmente é
qualquer ponto fixo, como a personalidade que se fragmenta nos
fenômenos paranormais, ou psicopatológicos, ou ainda na duplicação
dos sósias. A questão será então, uma vez compreendendo a arte
como meio de reflexão, conforme Benjamin, localizar a
multiplicidade dos gêneros ou formas de exposição como um
continuun que fabrica a unidade da arte.
Unidade impossível ao
modo de uma forma ou definição estática, o desenvolvimento das
formas faz comunicar o drama e o soneto, por exemplo, de um modo
ininterrupto na recepção do espectador. Benjamin assinala a ruptura
entre esse modo romântico de conceituar a reflexão e o conceito
kantiano de juízo. Neste, o procedimento reflexivo, por assim
expressar, é subjetivo e instantâneo. A reflexão de que se trata
na arte supõe inicialmente “a forma-de-exposição da obra,
desdobra-se na crítica, para finalmente realizar-se no regular
continuun das formas”, isto é, quando da concretude
estereotipada dos acontecimentos que num patamar primeiro
identificamos quase que intuitivamente como reais, atingimos o lugar
próprio do fenômeno enquanto artístico. Atingimos, portanto, nesse
nível, o lugar como a proximidade, a vizinhança do fenômeno
estético.
Heidegger, ao
debruçar-se sobre a poesia de Hölderlin, descobre a necessidade de
compreender a proximidade, desde que o Logos refletido pelo poema
como a palavra que a palavra poética mesma tematiza,
"E se encontra a palavra e o coração se abre"
se impõe como aquilo que brilha, que aparece,
"Agora e
agora têm para isso de nascer palavras como flores."
O que o pensador
percebe é que esse campo de flores que são palavras atua assim como
um campo natural que veríamos como a uma paisagem. Ou seja, nele
vigora, do mesmo modo que no campo natural, as tensões de opostos,
terra e céu, a profundidade e a altura, mas não como coisas que aí
simplesmente se depositaram, e sim como o Logos traduz o Tao como o
Caminho por onde se en-caminham esses acontecimentos numa vizinhança
estabelecida pela proximidade deles, onde supomos então os fenômenos
na sua oposição ou entre-destinação. Ou seja, o caminho, ao
en-caminhar, antecipa a proximidade do encontro, o campo da palavra
instaurando ainda o próprio oposto, o fora ou a distância.
Assim não creio que a
interpretação de Heidegger da poesia de Hölderlin esteja anteposta
à compreensão de Benjamin do conceito de arte subjacente a esse
fazer poético, pois trata-se de um trazer para a interioridade de
uma vizinhança, de um lugar, que são os da arte, aquilo que há em
qualquer fenômeno artístico particular, enquanto até aqui
tratava-se justamente do oposto, de fazer a arte comunicar o seu
exterior, como coisas captadas e reproduzidas do mundo. Nesse
sentido, o viés de uma forma-de-exposição é estabelecer essa
proximidade na interioridade do espectador, pelo que ele se instala
nessa vizinhança para recuperar o en-caminhamento da forma no
continuun do universo artístico, ou seja, das
formas-de-exposição no meio de reflexão.
Mas de modo algum isso
é visto como um funcionamento, um puro dar-se da manipulação de
signos. Antes, trata-se de uma realização espiritual, milagre ou
magia, em todo caso a produção do mundo que não mais se concebe
como um todo dado, mas algo que deriva do trabalho incessante do
espírito, como vimos. E Carpeaux nota que o estudo de Tieck sobre
“o milagroso em Shakespeare” define o milagre como “supremo
produto da imaginação que o cria e destrói à vontade”.
A filosofia não mais
procura tecer a grande narrativa meta-física pois teve que renunciar
a isso perante a soltura das ciências. Em compensação a dispersão
dos pequenos relatos, no sentido de restritos ao seu objeto, da
ciência, multiplica os mundos conforme a perspectiva do objeto.
Quanto a este, porém, solveu sua concretude e horizonte de junção
numa peça única que seria o real pelo transcendental que instituiu
a unidade somente do lado da reflexão. O tema da grande narrativa
filosófica circunscreve-se à epopeia do espírito cujo maior feito
é a autoconsciência.
O ambiente da poesia,
conforme Carpeaux, torna -se a alternância entre os opostos,
“milagre e crítica, ilusão e desilusão, sonho e ironia”. Creio
que essa evidenciação de oposições, como já notado em Heidegger,
não deve ser manejada no cenário romântico ao modo de verdadeiras
antíteses. É talvez isso que sugere o termo “alternância” em
Carpeaux. Benjamin coloca precisamente o problema das ideias na
poesia romântica. Conforme o critério da síntese, a ambição
máxima da poesia, como da filosofia, seria a condensação,
respectivamente, das formas-de-exposição – já agora não apenas
gêneros ou espécies, mas as ideias presentes numa espécie, o poema
– e dos conceitos, num só, que organicamente os abrigaria como um
germe individual contendo uma profusão de indivíduos potenciais. A
ideia poética deve assim ter o estatuto de um deus e a ambição da
poesia deve ser produzir uma ideia que encerre todas as outras que
ela maneja, sugere, ou evoca.
É aqui que me parece
estar o nexo do romantismo com a centralidade de uma concepção
polissêmica do real. Há certamente a questão linguística da
diferenciação entre polissemia e homonímia. Além de que, a
polissemia não é de modo algum uma figura de linguagem, mas apenas a eventualidade
de uma profusão de sentidos.
A questão emerge
especialmente nos quadros da gramática gerativa que, por motivos
óbvios de economia formal, prefere negar a oposição e tratar ambos
os casos em termos de homonímia, ainda que compreendendo, como
Bendix, o fato de que “técnicas de dedução que penetram nas
intuições dos falantes sobre polissemia e homonímia resultariam na
preservação da distinção”. O contraste dos pontos de vista
sobre isso, porém, não é apenas entre linguagem e metalinguagem,
mas envolve a controvérsia entre abordagens linguísticas gerativa
ou histórica, sendo que nem mesmo apenas isso permite situar com
precisão a solução em virtude do ponto de vista escolhido.
Somente essa
controvérsia seria provavelmente solúvel conforme a decalagem das
abordagens sincrônica ou diacrônica da língua. Mas, conforme o
exemplo de Bendix, raise (criar, educar ) e raise
(elevar ou levantar), são, por critérios históricos, tratados como
polissemia, de modo que alguma ambiguidade pode restar como em He
raised the child. Já ear (para ouvir) e ear (de
milho) são homônimos. No entanto, ao inverso do que os critérios
históricos poderiam considerar, mesmo no presente alguns falantes
poderiam considerar o segundo sentido de ear metafórico em
relação ao primeiro, “porque sobressai no caule como uma orelha”.
Sem aprofundar o
assunto, o que não seria de grande interesse aqui, o essencial me
parece ser que em geral o que se trata como polissemia admite a
concepção de um continuun significante, o que não ocorre
na homonímia. Nesta há inteira descontinuidade entre sentidos que
calham caber numa mesma fôrma significante. Mas na polissemia
guarda-se uma espécie de ressonância, tanto que a polissemia de uma
palavra no léxico é tratada no interior de um mesmo verbete,
enquanto que às formas meramente homônimas reservam-se entradas
separadas.
A fôrma significante
conservada a mesma na homonímia não remete, pois, a si mesma.
Inversamente, a polissemia do real na reflexão romântica envolve o
cerne dessa eventualidade da significação pluralizada. Pois
guardando-se como uma espécie de elo no continuun dos seus
desdobramentos, exatamente como o meio de reflexão que é a arte, o
Significante que atua a polissemia guarda-se como Unidade pura,
Identidade pura, o sonho romântico, artístico e filosófico,
consistindo na abolição da barra que dobra o signo na imediatez do
significado, abolição do juízo disponibilizado, que abole o mistério na síntese
estática objetiva. Trata-se da insurgência do exilado de um mundo
inviabilizado pela Revolução contra a banalização do sentido, do
tipo psicossocial representado por Chamisso, conforme Carpeaux, nobre
emigrado da França revolucionária e germanizado na Prússia “a
tal ponto que sabia escrever os 'lieds' mais ingênuos e mais
populares da língua alemã”. Na polissemia do Real romanticista, as culturas tem valores irredutíveis umas às outras, e essa é sua descoberta, seu anti-classicismo, mas entre os valores culturalmente segregados, há o universal do espírito vindo a ser autoconsciência.
3
A “série
infindável de espelhos” schlegeliana, assim como interpretada por
Benjamin, conceitua eficazmente a relação fundamental que o
pensamento romântico estabeleceu entre reflexão e infinitude, de
forma a mostrar que o caráter infinito da reflexão assinalou a
mutação histórica que fornece o adequado embasamento da Episteme
atual. Tanto que se pode sem dúvida localizar nessa relação também
o liame entre as teorias românticas do conhecimento e da arte, como
observar a oportunidade da colocação de Marcio Seligmann na
introdução desse estudo de Benjamin (O conceito de crítica de
arte no romantismo alemão), que traduziu, acerca da atualidade
da questão por este suscitada.
Sob a ótica da
gnoseologia, o significado da reflexão nos românticos é analisada
por Benjamin em função de sua não redundância no vazio. Trata-se
na reflexão de um pôr a si da consciência que nunca cessa de
novamente se pôr diante de si, ao infinito. O fato importante nesse
ponto da inflexão do pensamento romântico é o originário pôr da
consciência que se tornou um conceito como que auto-consistente.
Aquilo que até agora só se podia efetuar com relação ao conceito
de Deus. O absoluto do se pôr da consciência, porém, não apenas
desloca o horizonte inteiro da transcendentalidade kantiana, mas transforma a
problemática a ele associada, a saber, aquele impasse entre
iniciativa e ordenação de mundo.
No absoluto, o
originário se pôr da reflexão infinita na consciência, Benjamin
insiste sobre isso, não redunda no vazio, mas trata-se de uma
“infinitude de conexão”, ou, conforme sua citação de
Hölderlin, do “ Conectar infinitamente”, a expressão envolvendo
ainda o qualificativo “exatamente” que Benjamin interpreta como
“sinteticamente”, ou seja, o conectar de tudo, de uma infinidade
de maneiras, desde a mediação essencial da reflexão em seus níveis
que gradualmente estendem a complexidade do Real. Essa mediação não
vem a ser, contudo, surpreendentemente, senão “em si imediata”,
uma vez que é a reflexão algo que não admite mediação, já que é
inteiramente a operação da consciência, o seu meio.
Ora, essa imediatez
não se confunde com a absolutez do pôr-se da consciência. E, de
fato, parece-me que a espessura demarca o estatuto do transcendental.
Mas aqui Benjamin comparte a tríplice raiz desse novo conceito de
absoluto. Primeiro, a determinação clássica, cartesiana, que está
sendo precisamente ultrapassada já na concepção da
doutrina-da-ciência de Fichte. A oposição apontada mostra que
Fichte considerava o pensar como uma determinação ulterior do que
essencialmente estava em jogo, a saber, o ser que somente o Eu não
apenas apreende, mas originariamente pode se sustentar como o que é.
É certo que cada pensamento, inicialmente forma, torna-se matéria
para o pensamento que lhe é ulterior e que o reflete, e assim ao
infinito. Contudo, é a constitutividade do ser nessa infinitude
reflexiva do pensar o que importa a Fichte, pois o que funda, nesse
caso, é a posição absoluta e originária do Eu.
É a operação
dialética do pôr, não o simples sempre reiniciar da reflexão, que
estabelece o método fichtiano na medida em que em algum ponto isso
se completa por uma intuição de tipo novo, intelectual,
auto-apreendendo-se enquanto constitutividade operativa e à posição
originária da identidade, do Eu enquanto uma ação, aquela do pôr
e do seu inevitável refletir. Essa ação tornada objeto da intuição
intelectual é como que refeita, elevada ao absoluto de que, no
entanto, se constituiu originariamente na imediatez. Parece-me que é
essa imediatez que Fichte intenta como que sobredeterminar, desde a
simples e original posição, por um ter sido posto intelectual,
“científico”, conforme a expressão da “doutrina”, o que na
ambiência metafísica romântica tem o alcance de um ato místico,
espiritual. Reside aqui, a meu ver, o básico da concepção
místico-intelectual do pós-kantismo, que Hegel nomeará em termos
da espessura entre o em-si, o para-si e o em-si e para-si. O
interesse fundamental que permite a esses pensadores unir a mística
e a ciência está em que uma vez o ato sendo intelectual ele se
torna, e torna o conteúdo, objetivo.
Conhece-se a
importância do estatuto da objetividade na era clássica, quando
designava o modo de ser puramente ideal, por contraposição ao modo
de ser formal que designava a ligação da ideia com a realidade
material. Ora, as ideias eram então o lado claro e distinto do Real,
o que detinha a prerrogativa da existência. Por um lado, isso
garantia a inteligibilidade do real, porque a ideia era habitualmente
considerada como representativa do seu conteúdo objetivo e formal.
Mas também, inata ou adquirida, era a ideia como atribuição do
pensamento, do intelecto, que fundava a Episteme na sua legitimidade,
assim como nossa experiência possível do mundo.
Que a atuação do
caráter objetivo do conteúdo dependa de uma intelecção posterior
ao seu devir parece uma reversão considerável do modo classicista de apreender
a concretude do real. É a dobradura do mundo clássico, a linha reta
infinita que separa pensamento e extensão que se compromete
inapelavelmente na fissura que impõe agora a história, o devir do
mundo culturalizado, na estipulação do Real.
Passo de uma
incalculável importância, sem dúvida, o de Fichte, mas não
aquele, o que completa a tríade conceitual da subjetividade moderna,
atuado pelos românticos Schlegel. Aqui o que funda é a reflexão, não o ato
do pôr, uma vez originário e depois absoluto, do Eu, ou de Ser.
Ora, o que em Fichte ocorre apenas em um único caso, e o que o
espírito torna objetivo sendo o ato de pôr refletido como conteúdo
da intuição intelectual, nos românticos é a atuação mesma do
mundo em qualquer reflexão operada.
Como o que o
pensamento engendra na reflexão é a forma, a operação consistindo
em tornar o pensamento precedente matéria, essa é somente a forma
desse pensar, o que gera uma aporia insolúvel para o próprio
pensar. Pois a reflexão estabelece dois pólos aí onde, até aqui e
mesmo em Fichte, o pensamento se concebeu sempre como uma relação
de sujeito a objeto ou do objeto ao sujeito – tanto que é a forma
proposicional da subjetividade que funciona como ancoragem na
argumentação fichteana. Ou seja, como uma correspondência termo a
termo onde o objeto deve se anular na sua destinação ao sujeito. A
unicidade do conceito, Fichte parece tê-la salvo mesmo onde
tratava-se de não mais ser possível contar com o fundamentação do
Cogito. Com os românticos, especialmente na conceituação de F.
Schlegel, a reflexão infinitizada sugere um terceiro momento onde a
expressão “pensar do pensar” não pode mais decidir sobre se sua
própria determinação está no primeiro ou no segundo pôr-se do
infinitivo verbal. Benjamin fala aqui de uma insuperável
“ambiguidade”, que os românticos desdobrem no mais íntimo do
conceito e do espírito. A meu ver, trata-se de que os dois momentos
do pensar apelam-se, mas sem denotar o mesmo, sendo a alteridade no
pensar o que escandaliza o para-si do ato de refletir.
O que os românticos
estão superando, conforme Benjamin, é a passividade e a infinita
identidade da intuição kantiana. Não é a identidade o termo da
reflexão no pensar, mas a alteridade que se reporta ao criar, de
modo que nesse ponto a gnoseologia inflete a estética. O que está
em jogo aqui parece ser o estatuto da imediatez, do que não admite
mediação. O que se dá originariamente, para Schegel, não deve ser
posto como o conteúdo da intuição, então mediatizado pelo
pensamento na reflexão, finalmente pela forma da Identidade, o Eu
sendo essencialmente, como tal, forma de identidade. O surpreendente
aqui é que a subversão do uno e do idêntico se faz quando o que
não precisa de mediação se torna o que vem de nós mesmos, não
uma forma de identidade ou uma “intuição intelectual”, mas o
sentimento, ou mesmo um pensar imotivado, que não precisa
justificar-se ou ater-se a um conteúdo externo como uma reação ou
um intuído. É nesse ponto que reside o absoluto. Na indecisão
quanto ao ser se libera o ímpeto ou a iniciativa que pertence
somente ao sentir e pensar do sujeito. Na impossibilidade de
determinar o ângulo sobre que incide a reflexão, torna-se “melhor
flutuar pelas asas da reflexão poética no intermédio entre o
exposto e o expositor”, assim como pode fazer a poesia romântica,
segundo Schlegel.
A reflexão surge do
nada, de um ímpeto ou iniciativa inteiramente subjetivos e autônomos
que, no entanto, produzem algo. O que se torna objetivo, no sentido
místico-romântico, agora, não é a atuação de um conteúdo
intramundano, mas o objeto estético, o resultado do fazer artístico.
O mundo mesmo, por outro lado, torna-se mais do que um correlato
fenomênico do que existe por si, ainda que espiritualizado no saber
de si. Ele é mais do que representação, é vontade produtora,
poiese, que não se pretende ainda anular devido a que a arte
permanece na sua função existencial, meio, aqui parecendo-me
interessante jogar com a expressão benjaminiana “medium” naquilo
em que poderia ser desdobrada em “millieu”. Pois seria realmente
redutor tentar explicar essa autonomia recém-conquistada da arte
pelo viés sociológico de ter-se ela tornado o refúgio de uma
classe deslocada pela história – esse novo horizonte metafísico,
contudo. A própria história da arte ilumina os caminhos pelos quais
progressivamente ocorre a emancipação do objeto, do picturesco, em
prol da autonomia do produzir. Não obstante, esse “meio” de
distinção de uma classe é realmente o estético romântico, e por
aí poder-se-ia considerar o tema da conciliação da nobreza com o
ímpeto e a ação, a iniciativa sendo até então o apanágio do
burguês, dos atarefados que não podem conquistar o reino.
Essa nobreza está,
porém, em vias de se conciliar com o capitalismo de modo tão íntimo
que o liberalismo terá que ser inteiramente superado na era dos
Impérios industriais que se prepara agora. No entremeio, um outro
romantismo se estabelece, aquele do bas-fond como, exemplarmente, o
de Sue, que nutre o pequeno-burguês e o proletário, as três
vertentes algo imbuídas daquele liberalismo que constituirá uma das
correntes míticas que não cessam de inspirar a modernidade e o seu
pós através do ideologema do “povo” .
O Mundo é esse ponto
de ruptura entre Fichte e Schegel, mais particularmente, entre o
antigo e o novo, decalagem que decide acerca da questão de
existência da modernidade. Sobre isso re-encontramos a atualidade
pós-moderna do estudo de Benjamin.
O que Shlegel pretende
superar é o que Fichte ainda conserva, uma arquitetônica filosófica
que deve repousar inteiramente sobre um conceito fundador de talhe
unívoco, nesse caso o deslocamento, desde Kant, tendo sido o
transcendental nomeado pelo viés da Razão ou Eu, subjetividade
radical fundadora de qualquer experiência possível. Ora, Schlegel
pretende fundar sobre a diferença ou o intervalo ambíguo, em todo
caso entre o Eu e o Mundo. O que é refletido, espelhado, não é o
si mesmo, e sim “algo novo”. É preciso transvazar o heterogêneo
por meio da repetição, mas isso implica que o elemento da vontade
entre na correlação que estabelecia-se apenas na iminência da
representação.
Com efeito, não é
inconscientemente, mas consciente e voluntariamente que o Eu percebe
sua limitação pelo Mundo, o Outro ou o Não-Eu. A mística deixa de
determinar-se pela objetivação no pensar para-si do que é em-si
para se desdobrar num movimento de báscula que é exteriorizar-se na
limitação ao encontro do Outro e um interiorizar-se, potenciar-se,
na volta ao Mesmo - alterizado, por assim expressar, em razão de
sua provisória expansão na exterioridade de si. A essência do
romantismo, conforme Novalis, é identificar, chegar a, esse Mesmo
potenciado a partir daquele mesmo radiciado, utilizando a metáfora
matemática, desde a sua simplicidade anterior à essa extração de
raiz ou sair de si.
Mas que é esse mundo,
o que se tornou? O contraste com o classicismo não poderia ser mais
oportuno. Ocorre que o horizonte de mundo clássico é uma unidade de
exterioridade em relação ao sujeito qualquer. Ainda aqui o
iluminismo se põe de acordo, tendo apenas feito matéria,
corporificado num mecanicismo radical, o que antes se concebia como
ideia na dobradura inteligível da indiferente extensão. O
romantismo ultrapassou o que parecia a subversão máxima dessa
dobradura do mundo, a saber, a inflexão kant-fichteana da intuição.
O mundo da reflexão romântica não é um, mas vários, os mundos das culturas que fragmentaram a antiga unidade. É isso que
resta como conexão infinita ou multiplicidade. Ele depende do
horizonte da subjetividade, mas esta, como vimos, não é
simplesmente a fôrma que autoriza a unicidade do mundo manter-se
sobre a heterogeneidade do pensar e do ser. Que não há ser humano
sem mundo, nem mundo sem o humano, que não há horizonte indiferente
ao sentido, mundo sendo agora portanto um situamento histórico-cultural, essa descoberta pós-moderna já parece estar implicada
no conceito romântico de reflexão.
O interesse da crítica
pós-moderna pela obra de Benjamin, conforme Márcio Seligmann,
reside justamente na desconstrução do significado transcendental
praticada pelos românticos de Jena, conforme a descoberta
benjaminiana de sua filosofia da linguagem. Assim, autores como
Jean Luc Nancy, Philippe Lacoue-Labarthe e W. Menninghaus,
interessaram-se pela relação evidenciada entre a “filosofia
cíclica de Schlegel”, a noção de “desdobramento infinito da
reflexão”, e “da própria verdade – ou, do absoluto – como
Reflexão, movimento”.
É interessante que
Seligmann tenha observado que uma das limitações que a época impôs
ao trabalho de Benjamin foi a lacuna de uma análise sobre a
imaginação na epistemologia dos românticos. Pois mais um elemento
de contraste se poderia observar entre o mundo da ordem clássica e
este(s), o(s) mundo(s) da complexidade romântica. Basta a enunciação
de Bréhier acerca da recusa da imaginação em Malebranche, sendo
que numa concepção de arte como meio de reflexão o papel da
imaginação é fundador. É e continua sendo, porém, sintomático
que uma crítica por demais arraigada ao vezo de aceitar sem
interrogação as máximas do senso comum – isso que já os Webb
ensinavam ser o sinal de cumplicidade ideológica do sociólogo –
trate como “evasão” o que o artista romântico compreende como
outros cursos do real, o sonho, a imaginação, a criação poética.
O importante aqui é observar que a conectividade e a infinitude se
combinam para manter como real esses mundos paralelos, já que neles
se conserva aquela coerência intrínseca que é a da arte, não a do
objetivismo cientificista
Assim também Otávio
Paz contou a história da continuidade moderna através da descoberta
da magia da criação poética atuante na articulação da crença. O
hagiógrafo de todos os tempos, sabe-se agora, é o poeta, mas o
fruto dessa magia não pode ser considerado como mera fantasia.
Torna-se limitante de uma subjetividade para quem a crença existe
como sua e real. Se essa limitação é criadora de uma potenciação
máxima, o distópico na modernidade é o fato de que o real mesmo
não se limita assim – nem de qualquer outro modo. A
impossibilidade histórica de Narciso perpetuar a sua impressão de
onipotência tornou-se o reverso desse ideal de potenciação
ilimitada de uma subjetividade que somente se acresceria de suas
experiências de alteridade, como se estas não encerrassem o
irredutível, o inaceitável. O fascínio da finitude, tema central
do romantismo, poderia ter nesse ponto o seu foco.
Ora, o sonho romântico
que engendrou a realidade oposta a si, de um capitalismo Imperialista anti-liberal, parece ter sido essa aliança cuidadosamente entretecida ao menos na
imaginação poética, de Comunidade e Sociedade, assim como do Eu e
do Outro, via infinitização da Reflexão ou objetivação
espiritualizada do mundo, escolhendo-se à vontade entre Schlegel ou
Hegel. Mas não seria por esse meio que a descontinuidade iria se
insinuar para impossibilitar uma grande narrativa da modernidade?
Também Carpeaux nota que o tipo de dúvida em que o totalitarismo
contemporâneo, no século XX, lança o intelectual, não tem o mesmo
corte do passado, pois o führer carece de apelo religioso, é
tão somente um “déspota burocrático”.
Parece que mais algum
elemento deve juntar-se para localizar a descoberta de Benjamin, ele
mesmo representante dessa problemática contemporânea, sua intenção
não podendo portanto ser somente a de ecoar a mística romântica.
Aquilo, talvez, que Paz nomeou, ao notar que não foi somente a
descoberta do horizonte de sentido que fez a revolução moderna
desde o romantismo, mas também a destrutividade dos valores, a
desconstrução permanente. Se esse elemento crítico pode ter alguma
relação com o interesse benjaminiano no pensamento romântico,
contra, conforme Seligmann, as interpretações de Stefan George e
Dilthey, a sua solvência no pós-moderno, como na tese de Otávio
Paz, poderia fornecer uma pista para o estado de coisas
quase-totalitário que parece ser o da atualidade.
Parece sintomático
que Carpeaux recorde o Sturm und Drang ao descrever o que foi
o Wandervogel, espécie de “escola de formação da juventude
nacional-socialista”, isto é, nazista. Mesmo voltar-se para a adoração romântica
da natureza, acompanhado da redescoberta da poesia de Hölderlin
através de Stefan George. O desenvolvimento dessa cultura no sentido
de um fechamento decisivo de horizontes se tipifica na trajetória de
George, desde um esteticismo que pretendeu, como no sonho romântico,
suturar a brecha entre Sociedade e Comunidade, conferindo “um novo
sentido estético à civilização”, até a transformação do
grupo em ordem religiosa, “Círculo” no sentido de seita, onde se
venerava George como fundador de uma religião e os grandes poetas
eram cultuados como “magos da palavra", incluídos no panteão
dos outros heróis do gênero humano que só existia, contudo, em
função desses grandes homens, tudo isso não deixando de apresentar
certa ressonância com a religião de Comte. Foi mesmo um novo Reich
que George e seus colaboradores pretenderam criar através da magia
da palavra poética, “império da beleza grega sobre o fundamento
da raça germânica”, etc.
A aproximação que me
parece legítima, não obstante historicamente contraditória, com o pai do positivismo ressoa com a análise de
Carpeaux acerca da natureza da poesia de George, fortemente
classicista a seu ver, como se tornou moda desde o parnasianismo, não
obstante rotulá-la, constantemente, “simbolista”. Ocorre que o
fenômeno a ser aproximado é o esteticismo e suas várias acepções
através da história dos movimentos que se sucedem a partir do
romantismo. Uma coisa, pelo menos, é certa. A inadequação da
aspiração esteticista-nacionalista do círculo de George à
realidade burocrática do regime que lhe teria sido o coroamento das
expectativas, portanto, sua exclusão da nação hitlerista. Mas
determinar até que ponto, não obstante, o esteticismo sempre
significou um reacionarismo é o que deve se colocar como questão,
não como algo dado se bem que assim o considere Carpeaux.
Manejando uma oposição
bem marcada entre clássico e romântico no sentido daquele contraste
entre concepções de Mundo – o antigo, objeto indiferente da
intuição, e o moderno, pluralizado como horizonte cultural de sentido –
seria preciso colocar a questão de se a curva do romantismo ao
Realismo não encerrou o ocultamento da descoberta romântica em prol
de um novo tipo de redução objetivista.
4 -
Que Das Neue
Reich idealizado por George, conforme o título de um dos seus
volumes de poemas, não tivesse sido concebido mais como do espírito,
do que da carne e do labor políticos, eis o que a leitura de
Heidegger de um desses poemas convida a interrogar. Nesse texto
acerca da “Essência da linguagem”, especialmente se o
completarmos com o exame de “O Caminho para a Linguagem”,
o cerne da problemática envolvendo o pensamento romântico e sua
ressonância na atualidade me parece estar claramente delineado.
Ao debruçar-se sobre
o poema “A Palavra”, de Stefan George, Heidegger se detém em
dois dados importantes. Um deles é a articulação do texto
poemático, o fato, aliás, dele ser tão estranhamente desarticulado
a ponto de parecer nitidamente haver uma profunda ruptura entre as
três estrofes iniciais e as quatro que se seguem. O início fala de
uma experiência jubilosa, uma conquista da palavra, enquanto o
restante do poema enuncia algo como uma perda da experiência da
própria linguagem. O outro dado, este mais conspícuo na leitura
heideggeriana e que funcionará aqui como o fio de prumo da
problemática do romantismo, é o mistério que subjaz à última
estrofe, especialmente o verso final
Nenhuma coisa que
seja onde a palavra faltar .
Não seria este espaço
o adequado para uma exposição mais detida de toda a amplitude das
observações de Heidegger sobre o poema, por exemplo, não tocando
na questão dos dois pontos que precedem esse verso enunciarem uma
renúncia, mas de modo que a que é que se renuncia parece ter
logrado a proeza de ter permanecido vago, mesmo sob a determinação
de pontuação tão precisa. O que se torna fundamental ao nosso
interesse e o que não pode deixar de ser evidenciado, é que ele
chega a duas interpretações possíveis do verso, tendo em vista a
sua descoberta de uma lacuna aí mesmo onde aparentemente o que se
tem manifestamente é uma definição.
Essas duas
interpretações não são do verso sem ser sobre aquilo que o verso
enuncia, a saber, a essência do que a palavra diz, a essência da
linguagem, melhor nomeada lá onde ela falta, ou seja, o poema deve
nomear o que é que se impossibilita nessa contingência afinal tão
estranha, pois não se concebe que a palavra falte ao ser que se
define como falante, o homem, menos ainda sendo este que se pronuncia
sobre a falta, o poeta, aquele que detém a mestria, o domínio, da
palavra.
A questão que
Heidegger descobre oculta no poema trata, então, do seguinte. Que é
essa nenhuma coisa, ou melhor, que é que não é, que não há, se a
palavra faltar? As duas respostas possíveis são:
a) o ente ( nenhuma
coisa )
b) o ser (
nenhuma possibilidade de coisas)
No encaminhamento da
análise desse dilema, Heidegger colocará em dúvida a propriedade
do título de que se utilizou para desenvolver o texto. Não somente
o ser da linguagem, mas ainda a possibilidade de se dizer a essência,
ou seja, todo o problema da essência se acha jogado nesse ínterim,
entre as duas possibilidades. Mas sabemos que colocar isso implica
colocar o problema do pensamento. A relevância de sua história, ao
longo da metafísica ocidental, mas, e de modo mais íntimo, o seu
próprio antepor-se no presente do texto. Será que questionar sobre
o que é, será que perguntar sobre a essência é o único gesto
digno ou próprio do pensamento? No entanto, colocar essa questão já
é estar engajado numa experiência poética com o pensamento, ou
ainda, considerando a origem de todo o questionamento, com a
linguagem. Ao mesmo tempo o que não pode deixar de ser pensado nessa
interrogação é o fato da poesia, assim, ela mesma vibrar somente
num pensamento, ambos, poesia e pensamento, só estando a caminho
enquanto se posicionam numa vizinhança, numa proximidade que os
entre-relaciona inapelavelmente.
Sem antecipar conclusões, seria interessante voltar àquela anteposição
sublinhada por Benjamin entre as concepções
tético-dialético-kantianas do transcendental e a fluência do
conceito schlegeliano. Nesse ponto, o que me parece ressoar é a
temática do feminino no romantismo.
O que a fluência do
conceito, lá onde a poesia pode flutuar na hiância desse mutável
que é o sentimento, e no entanto algo tão “aí”, tão existente
para aquele que experimenta que não poderia honestamente negá-lo no
mais íntimo, inspira, e onde ele se inspira, a meu ver, é esse novo
olhar sobre o feminino que o romantismo pratica. Assim a hiância
entre o pensar e o pensar – afinal, pensamos o pensado ou pensamos
o que deve ser pensado? - faz apelo mais ao sentimento feminino assim
como expresso no mito do que ao arquétipo masculino.
O mistério do Uno e
do Múltiplo parece envolvido na concepção das deusas-maiores dos
panteões Indo-europeus. Krishna-Lakshimi, Zeus-Hera, comportam esse
mistério, sendo sempre multiplicados. A centena de esposas de
Krishna são a mesma deusa da Fortuna, assim como o esposo é o mesmo
em sua centena de palácios. Mas a identidade do arquétipo masculino
é homonímica, do feminino é polissêmica. Krishna conserva o nome,
Lakshimi conserva somente o atributo, sob variados nomes. Zeus se
multiplica nas suas aventuras amorosas e Hera continua a ser a que
espera, duplo de Penélope, a esposa ideal. Mas as realizações
tragicômicas de seus planos de vingança a lançam em estranhos
devires, a multiplicam em peripécias que parecem feitas de modo a
não permitir que dela se concatene uma narrativa unívoca, a não
ser pelo negativo da imagem do rancor, não obstante ser a personificação do positivo, do poder.
Mas essas figuras
arquetípicas do eterno feminino indo-europeu recolhem, por certo, uma unidade ao
plasmar-se como ideia em todos os casais, seja no enamoramento ligado
à conjugalidade, não na simples aventura, seja na formulação
prototípica da constância, permanência, estabilidade, que lhe é
igualmente relacionada.
Interessa-me aqui esse
viés exclusivo do arquétipo feminino indo-europeu, mesmo acentuando que sua
proveniência é o destinar-se ao masculino, seu oposto, como não
ocorre com outras caracterizações de divindades fêmeas. Esse viés,
vimos ser o da hiância, entre a deusa e ela mesma, enquanto suas
posições são a convencional identificada pelo lugar ao lado do
esposo, ou a transitória, quando a peripécia ou a alteridade
inerente ao Epos a transfigura.
Ora, a instabilidade
de sua identidade, o devirenesco de seu tracejamento, é algo que
integra o lote dos atributos que compõem o eterno feminino indo-europeu onde a
fêmea guarda os mistérios das transformações e ciclos da
natureza, enquanto ao arquétipo masculino se atribui a firmeza do
que é necessário, do que não pode não ser ou ser de outro modo,
assim como contrastam tradicionalmente a poesia e o Logos em sentido
platônico-aristotélic, isto é, o Logos tético, que enuncia um saber da
essência, leia-se identidade, imutável. Poesia e Logos, arte e
ciência ou filosofia metafísica, realidade e fantasia, o cidadão
responsável e o poeta, eis os termos antitéticos que já estão
assim posicionados no par originário dos mitos indo-europeus de gênero.
Mas como na metáfora
de Nietzche, o atingir da plenitude do humano, indubitavelmente dado,
nesse senso feito comum, pelo arquétipo masculino, conota o
carregar, o tomar o peso, a responsabilidade, que se associa ao
destino do camelo. Seria interessante assim interrogar sobre as
relações que se poderiam estabelecer entre o despontar da alquimia
no cenário tardo e pós medieval, e a valorização do ideal
feminino que coalesce, e nessa mesma época, através das práticas
do amor cortês, sendo que o cerne da vocação alquímica é a
transmutação, a transfiguração, as transformações.
No texto “a caminho
da linguagem” Heidegger estabelece um contraste entre as concepções
filosóficas da linguagem de Aristóteles e Humboldt, isso de modo
que, a meu ver, ressoa com as duas possibilidades de leitura do verso
de George. Nos dois casos os autores apontados estabelecem uma
relação fundamental entre a linguagem e a fala, enquanto a essência
daquela é o que se vê no exercício desta, a saber, expressar o
que vai na alma. Ora, em Aristóteles essa expressividade é um
mostrar que se garante através do símbolo. Já em Humboldt trata-se
de um efetivo expressar.
A transição do
referente é o importante nesse ponto, pois o que se mostra é o
ente, mas o que se expressa é o pensamento enquanto possibilidade de
dizer o ente, ou seja, a cada fala o que se expressa é o mundo do
falante.
Considerando a época
em que Humboldt lança essa colocação da linguagem, inteiramente
coincidente com a do movimento romântico, temos vários fatores
enfatizados por Heidegger que assinalam essa concordância. Chega a
haver a explicitação mais oportuna da essência do romantismo,
parece-me, quando Heidegger se propõe a clarificar o sentido do
deslocamento humboldtiano: trata-se da “busca de apresentar
historicamente o todo do desenvolvimento histórico-espiritual do
homem tanto em sua totalidade como em sua individualidade”. Notamos
o quanto esse enunciado ressoa com aquele de Novalis e favorece a
interpretação do empreendimento romântico que visa superar o hiato
dilacerante entre o universal e o particular, em vez de situá-lo
apenas como uma tentativa de levar o individualismo ao extremo de
suas possibilidades.
O que se erigiu com a
filosofia pós-kantiana é na verdade a abordagem genética. Assim,
os verdadeiros opostos são Ergon (obra) e Energea (realização),
tanto quanto produto e produção, quando se trata de iluminar a
decalagem entre as duas concepções de linguagem. O ponto de vista
genético é aquele que não concebe a oposição, a não ser quando
ela é fundadora, não já instalada num horizonte de sentido dado
como pleno e auto-posto, como algo estático, e sim como uma
transição entre pólos que uma arte deve assegurar que se faça do
negativo ao positivo. Vejamos, a propósito, certos arquétipos
masculinos problemáticos em mitos como os de Osiris e Dionísio. Entre Egito e Grécia tendo havido certa contiguidade de influência que o Helenismo transformou numa fusão.
Esses são deuses associados à transmutação, e podemos localizar
com certa precisão o fato de que neles ressoa um apelo à
feminilidade. Osiris é um deus que, inversamente ao costume, têm
seu locus mítico dependente do arquétipo feminino, Ísis e seus
trabalhos de regeneração. Igualmente, Dionísio é o deus da
embriaguez, esse estado de loucura que é o inverso do Logos e cuja
realização pertence às bacantes. A figura feminina do mito de
Dionísio, Ariadne, é também transitoriamente atingida pela
loucura, tanto quanto de uma duplicidade: enlouquece ao ser deixada
por Teseu, é uma vez a contrapartida dele, para depois o ser de
Dionísio, que a cura e deifica.
Ora, nestes dois mitos
os opostos não são estáticos, são condições que implicam o
trabalho de sua transição. Ísis, ao longo de estágios marcados
que muitos consideraram o protótipo da obra alquímica, deve
transpor a condição de Osíris despedaçado por aquela de sua
inteireza, Dionísio deve curar e transfigurar Ariadne. Hércules
seria ainda um tema interessante, pois comporta as estações da
realização, seus trabalhos, também símbolos alquímicos das
etapas da obra, ao mesmo tempo que é simétrico de Hera, como se o
mito se preocupasse com os modos pelos quais o próprio sentido da
transformação pode ser administrado conforme uma ótica do Logos
regrado, masculina, e da fluência e hiância, feminina, se bem que
poderiam estar assim somente antepostas duas formas de condução dos
processos de mudança e transformação.
Mas
Heidegger interpreta o romantismo de Humboldt como um “idealismo
moderno”. É que esse conceito de realização soa como aquele
“trabalho do espírito” de que tanto se fala em Hegel e mesmo
Benjamin aponta como a ideia de progressividade dos românticos, de
modo algum um mero “progresso”, como um fazer cada vez melhor,
mas como a sempre recomeçada realização da transição do caos à
harmonia, conforme Schlegel. Também Otávio Paz coloca esse
orientar-se ao futuro, essa concepção de produção no seio do
devir, como aquilo que define a modernidade desde os românticos.
O
fundamental da transição é, portanto, entre os antagônicos
indivíduo e todo, particular e universal, o “transitório” e o
“consistente” na expressão de Humboldt. Não se apreenderia,
contudo, o que está em jogo no romantismo, se interpretássemos isso
apenas como se os autores românticos houvessem repentinamente se
decidido a ver no indivíduo um momento da totalidade, mantendo-a
como o determinante da progressividade. Procedendo assim não se
atingiria de modo algum o sentido do misticismo de que nos fala
Schlegel. Aqui, porém, insinua-se também a divergência entre as
leituras mais atuais do romantismo.
Como se
pode observar, o essencial da introdução histórica de uma
abordagem como a genética é que o tempo se tornou imanente ao
conceito. Por aí temos que Heidegger aponta a centralidade de
Leibniz como referência da intelectualidade romântica. É o
conceito leibniziano de energeia, como atividade do sujeito, que se
tornou inspiradora desse modo de ver moderno, que não pode mais
prescindir da noção de desenvolvimento. Já Deleuze considerou o
romantismo de Kant, isto é, o modo pelo qual o transcendental
kantiano, não tão inversamente à anteposição marcada por
Benjamin, mais como que de modo subjacente e implícito, determinou a
eclosão da temporalidade no pensamento que lhe é posterior. Com
Kant, o tempo se torna a desjuntura do Mesmo, a identidade a si do
sujeito dependendo da espessura entre o empírico e o transcendental
prefigurada pela forma vazia (o “time is out of joint” shakeaspereano) do
Tempo, relativamente a que só Eu se poderia acrescentar ("oh, cursed spite, may I ever born to set it right").
Benjamin parece-me
propor uma certa originalidade na concepção de Schlegel do
desenvolvimento. Creio ser este o mais fecundo modo pelo qual podemos
nos acercar da mística romântica e do por quê de não se dever
deduzir nela apenas a mania infantil de onipotência outramente
manejada.
É justamente o
estatuto do transcendental que se torna o alvo de Schlegel ao
sustentar a expressão “poesia transcendental” como “termo
técnico” do seu meio, o que interpreto como sendo o equivalente de
uma “estética transcendental”, ou seja, a enunciação da
condição de possibilidade de uma experiência no sensível. Ocorre
que esse conceito schlegeliano está sendo manejado no interior da
explanação da Ideia de arte. A tarefa dessa articulação
conceitual se encontra atrelada àquela de configurar uma adequada
conciliação entre a infinitude ou progressividade da realização
artística e a limitação e determinação da obra de arte a ser
efetivamente feita aqui e agora. Ou seja, está-se novamente às
voltas com o problema da relação entre
unidade-totalidade-universalidade, enquanto não separável como
atributo de qualquer Ideia, e individualidade, parcialidade,
transitoriedade do espécime que encerra em si, a cada vez, toda a
possibilidade de ser da ideia enquanto sua realização na
efetividade.
Ora, a colocação de
Schlegel é importantíssima nesse momento, pois o que ela introduz
é a ideia da arte, seja, da poesia, como o transcendental da
realização da obra de arte, nesse exemplo, o poema. É o
transcendental, enquanto o enunciado da mais inquebrantável unidade
da Ideia, nesse caso da Arte, que assegura a partição do real e do
ideal, isto é, do relativo e do absoluto. Assim a arte grega, não
obstante a sua perfeição, fica sendo real e relativa em relação à
arte moderna na acepção de romântica ou contemporânea, seu horizonte histórico, esta sim, ideal e absoluta.
Mas a progressividade dessa realização da Ideia é infinita, assim
como não se pode de modo algum pretender enunciar o ser da Ideia,
conforme Schlegel, pois esta é a fonte mesma da infinidade. A Ideia
da arte é infinita, mas não indeterminada.
Se ela é “uma série infinita de proposições, uma grandeza irracional”, então “não pode ser posta”, restando “incomensurável”. Mas o continuun das formas assegura que “também o individual da arte, quando é tomado a fundo, deve conduzir ao todo incomensurável!”.
Se ela é “uma série infinita de proposições, uma grandeza irracional”, então “não pode ser posta”, restando “incomensurável”. Mas o continuun das formas assegura que “também o individual da arte, quando é tomado a fundo, deve conduzir ao todo incomensurável!”.
Há, a meu ver, uma
extensão entre essa colocação schlegeliana da Ideia de arte e a
filosofia de Hegel, naquilo em que este reverte, como vimos, a
conexão clássica do objetivo e do formal. As ideias não estão
dadas desde sempre, sem que o seu vir a ser deixe de implicar a
emergência do humano, significando este o espírito mesmo que as
realiza, que as pensa. Sem esse pensar as ideias nada são, e é
nesse sentido, totalmente reversivo em relação a Descartes, que a
existência das ideias agora nos implica. A realização do espírito,
contudo, uma vez que ele é o horizonte transcendental do fato de
pensarmos, não é indiferente ao modo como podemos pensar e pensamos
efetivamente. A mística romântica reside nisso, pelo que é esse
exercício, isto é, nosso exercício presente, do pensamento
autêntico, da poesia autêntica, realizador ao mesmo tempo, seja do
pensamento ou da poesia, como do espírito e do futuro, sem deixar
de ser, ainda, o do Ser e da Ideia – conceito ou poema, nesses
exemplos, sendo que evidentemente não há somente, para o ser
humano, as realizações da filosofia e da poesia, ou mesmo da
linguagem, mas inúmeras.
Ora, o original em
Schlegel, e eis, parece-me, o mérito da descoberta de Benjamin, está
nisso pelo que se Hegel ainda poderia – não obstante o quanto isso
poderia ser ainda matéria de controvérsia – caber na objeção de
Heidegger a Humboldt, ele escapa a ela completamente, o que torna
essa estética romântica de uma extemporaneidade, em sentido
nietzcheano, ímpar.
Pois o que Heidegger
observou acerca de Humboldt é que essa realização de mundo na
linguagem é assim considerada tão somente a realização do homem,
do humano, o desenvolvimento do espírito supondo, dependendo de, e
estando exclusivamente restrita a, o exercício e a realização
espirituais da humanidade. Eis aí o interesse de sua inserção de
Leibniz como figura fundadora desse devir conceitual, pois é a dobra
de pensamento e extensão que permanece intocada desde que na
extensão realizamos o pensamento. A isso Heidegger antepõe o
conceito de Riss, de riscar ou rasgar, que seria o mais
adequado à reversão do postulado antropológico conservado na dobra
polissêmica a partir de uma ambiguidade real suscitada pela soltura
do caminho.
O que se estipula como
objeção é que deveria ser o caminho – ou desenvolvimento, que
seja – da linguagem, não do humano, o que viria realmente
fundá-la como horizonte do sentido desvelado na fala. Esse rasgo
poderia assim re-enviar à teoria de Bakhtin já pelo fato de que
nela não subsiste nenhuma linguagem no abstrato e no geral, mas
somente há gêneros discursivos e modos de falar, entretanto,
historialmente destinadas, não simplesmente dados. Essas práticas
discursivas que sustentam os gêneros e modos bakhtinianos, lembram
mesmo o vigor que é o que impera na linguagem e que impele o falante
- no ato de falar ele vigora – conforme Heidegger.
Mas é um tipo de
descontinuidade ou autonomia absoluta assim que Schlegel prevê para
a poesia, ao procurar conceituar algo como a “poesia
transcendental”, conforme Benjamin. Não é o humano, ser de todas
as suas possibilidades e caminhos, que se exercita e fala no poema, o
poema estando para a fala (parole) assim como a poesia para a
linguagem (langue). Mas sim a poesia, o caminho solto porque autônomo
e desvinculado, nessa autonomia, de tudo o mais. Isso, ainda que
mantendo a juntura do que o Logos, não o platônico, como forma
inalterável de identidade, mas o Logos provisório que se articula
na imediatez de si enquanto esse relato-aí, esse caminho, conta,
pois nesse contar tudo o mais do homem também pode estar, se reunir
e ficar (constar, isto é, consistir, coexistir).
A mística
shclegeliano-romântica, portanto, não é a do indivíduo, o sujeito
centrado como aquele que vem a ser nesse centramento, se não daquilo
que nele re-encontra, e pode assim liberar-se, a soltura do seu
caminho, o que também solta a parte, o indivíduo, de sua
indiferença ao todo ou de sua subserviência a ele, transmutando o
que é o contraste parte-todo pela criação do novo caminho que é
aquele da criação desse artista, desse ser humano já
espiritualmente realizado.
Mas historicamente, o
Riss conduziu a essência para o lado da liberdade, o segundo
sentido na leitura heideggeriana do poema de George, somente na
transgressão do que habitualmente se tem pela concepção romântica
como individualismo exacerbado. O fato de Heidegger manejar nesses
textos sobre a linguagem a poética romântica por excelência,
lidando com versos de Novalis e Hölderlin, não me parece algo que
invalide ou que esteja em contradição com a sua crítica da
teorização oriunda desse ambiente do romantismo.
Heidegger, a meu ver,
procura a unidade da vocação desveladora e compreensiva do ser que
pertence à palavra poética tendendo por isso mesmo a contrafazer as
limitações de épocas ou estilos, tanto que mistura com
naturalidade a ilustração desses autores com referências de Hamman
e Trakl, representantes, respectivamente, de fases anteriores e
posteriores ao romantismo, assim como George. Mais importante é
notar que Deleuze parece concordar implicitamente com a descoberta de
Benjamin, pois enuncia o profundo romantismo do Kant da crítica do
juízo, ali onde a leitura dessa obra deixa entrever a possibilidade
de um exercício autônomo, não como posteriormente Kant irá
unificar, das faculdades, nisso lançando as bases de uma
independência da arte em relação à representação e ao saber. O
que resta ver é o quanto a originalidade do Schlegel interpretado
por Benjamin ultrapassa a simples conquista de uma arte autônoma no
limiar da modernidade estrita, assim como se costuma atribuir em
termos da novidade do romantismo em geral.
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A hipótese de que o
incógnita que depende da linguagem, no poema de George, é a
possibilidade das coisas, não diretamente uma coisa qualquer, pode
ser clarificada por um pequeno exemplo: quando alguém pronuncia uma
estimativa como “creio que x é y" não se pode atribuir ao enunciado um valor de verdadeiro ou falso,
não importando se o seu referente se verifica ou não. O gênero prognóstico, ousemos
denotar, não o admite, pois só se refere à crença de alguém, não
pressupondo que se saiba a verdade do que se fala.
E contanto que a coisa
em questão, falada na linguagem, conforme Heidegger mostrou, não
seja da natureza do objeto técnico, o esputinique ou como diríamos
hoje, o computador, é preciso uma experiência do escutar da
linguagem para compreendê-la. Se não temos a prática discursiva do
prognóstico taxamos de mentiroso aquele que conjectura, se sabemos
que sua impressão não se verifica. Que a coisa referida na
linguagem é o conteúdo de um prognóstico, não de uma declaração
de fato, para o intuirmos é preciso algo mais do que o mero
conhecimento lexical envolvido na asserção. Bakhtin o designou em
termos das “práticas discursivas” atuantes em certa época e
lugar, aquilo que suporta a realidade dos gêneros discursivos
vigentes aí.
A palavra
“experiência” aqui é de uma importância crucial. Toda
experiência é histórica, por assim expressar, mas o que
compreendemos assim é algo tão controverso que por esse viés
poderíamos estender todo o relato da novidade do mundo desde as
grandes navegações. Bakhtin o realizou, de certo modo, no seu
escrito sobre “O romance de educação na história do
realismo”, especialmente a partir do capítulo III, onde Goethe
assume o papel de referência principal.
O que une essas
considerações de Goethe e a observação acerca da interpretação
de Heidegger é o fato de que quando se pratica a terminologia da
história o que está automaticamente envolvido é o sentido do
tempo. Nem sempre e não importa onde o sentido é praticado, a
experiência pode ser feita. Quando Heidegger aproxima poesia e
pensamento e nos afirma que o pensamento autêntico, não aquele que
a tudo considera como ao esputinique, é uma escuta poética, o que
está nos revelando é que o poema cria, produz, o seu horizonte do
sentido, e que somente podemos nos aproximar proveitosamente dele se
consentimos em (re)fazer a experiência desse horizonte. Ora, pensar
é o mesmo, na medida em que compreendemos algo se nos colocamos na
posição de ouvir o que efetivamente é falado, não o que esperamos
ou julgamos, de uma posição a-histórica, arrogantemente recusadora
da experiência em questão, que deva ser dito. Pensar, portanto, não
pode ser reduzido ao gesto de perguntar pelo que é, como consultar
um dicionário. Precisa ser uma gestualidade livre, que pode convir
com o que se pratica no dizer e no revelar.
Mas essa percepção
do tempo como nível fundamental onde se joga a espacialidade da
letra e da palavra, eis a experiência da modernidade por excelência,
e é isso que Bakhtin recupera ao se aproximar de Goethe.
Inicialmente, conforme ele não deixa de fazer, é preciso lembrar o
que já se sabe sobejamente, o fato de que, instalando nosso ponto de
vista na transição ao século XIX, há somente três séculos o
limite do mundo era um além inominável, o mundo mesmo era algo
irrepresentável na totalidade e o tempo, na concretude de sua marcha
linear e causativa, não existia. A conquista de uma representação
desse além até então resguardado à fantasia, desde as grandes
navegações e a expansão comercial do Ocidente, não se fez
paralelamente a uma transição do tempo cíclico ao tempo histórico,
esse salto foi abrupto. Os mapas se completavam no contexto de uma
era clássica, alheia ao tempo e à história, vivendo e conceituando
sub specie aeternitates.
Bréhier e Foucault se
preocuparam especialmente em captar a transição tão fugidia, às
vésperas do século XIX, desse mundo bíblico-viquiano clássico
àquele da filosofia de Hegel. Voltam-se, para isso, ao que está em
marcha na construção do Saber, focalizando a proeminência que
gradualmente se torna aquela da biologia. Temos assim um primeiro
núcleo estável para constituir uma narrativa sobre isso que só se
apresenta a nós sob a aparência de uma descontinuidade radical. Esse núcleo é a natureza. Os dois autores mostram como, de uma
concepção completamente estática dos entes naturais, notadamente
os seres vivos, gradualmente se chega à noção de evolução, de
transformismo, no entremeio estando as doutrinas de continuidade
entre as formas, sem que se precisasse anda admitir a mudança e a
transição, a ação do tempo, no âmago da identidade.
Bakhtin se notabiliza
nesse aspecto. Ele ilumina o papel original de Goethe, e por extensão
da arte, nessa transição. Contudo, é ainda na referência da
natureza que isso procede. Somente não se trata da natureza que
pareceria ainda ser aquela do classicismo tradicionalmente
relacionado ao Iluminismo, e sim de uma natureza historicizada.
Seria algo jocoso
sobrepor duas citações: uma, de Bakhtin, contextualizada nas
considerações acerca da viagem de Goethe à Itália, onde se narra
a peripécia na Sicília:
“o guia ficou
ainda mais espantado quando Goethe, menosprezando aquelas recordações
'clássicas' [acerca da campanha de Aníbal], se pôs a apanhar
cuidadosamente pedrinhas na margem do rio”.
Ele concede então a
expressão a Goethe, sobre o incidente:
“Não
consegui explicar-lhe que o modo mais rápido de se ter uma ideia de
uma região montanhosa é examinar as espécies de pedras que os rios
arrastam consigo, e que também naquele caso tratava-se de formar,
através das ruínas, uma noção daqueles cumes eternamente
clássicos da
antiguidade terrestre”.
Grifei o termo por seu
contraste irônico com o que Bakhtin havia colocado entre aspas.
Quanto à segunda citação, Benjamin a atribui a Kircher:
“Estes românticos
[especialmente Hölderlin e o círculo dos Schlegel] queriam guardar
distância justamente do 'romântico' – tal como era entendido
então e hoje.”
Seriam estas citações
razões suficientes para desprezarmos os grandes períodos e rótulos
que no entanto, conforme Carpeaux deduz ao cabo de seu recenseamento
da história e da crítica literária na introdução de seu
monumental estudo, vieram a constituir o presente aceito da
historicidade nessa matéria, a ponto de resumirem, a definição e
constitutividade conceitual dos estilos de época, “a própria
tarefa da historiografia literária”?
Mais adequado seria
aproveitá-las para antepor uma noção da complexidade do período
que estamos examinando, a transição do século XVIII ao XIX. Sem
pretender, de modo algum, dar a impressão de que aqui intencionamos
responder com fórmulas altissonantes a questões insolúveis,
cuja oportunidade inclusive é o que permitem conjecturar, mais do
que o que deveriam fazer saber, o que podemos ensejar é um
mapeamento de alguns núcleos temáticos que a singularizam.
São dois os espíritos
que poderiam sintetizar a abrangência desses núcleos: Goethe e
Hölderlin. Sua anteposição enuncia, a meu ver, a mais fantástica
das bifurcações de caminhos da história. Compreender a sua
produção de arte e pensamento abrange, conduz a, uma menos
estereotipada imagem do que vieram a ser o classicismo e o
romantismo, isso tanto mais que não se pode lográ-lo sem tangenciar
a contaminação de influxos provenientes de cada uma dessas
vertentes na obra daqueles fundadores tão talhados para representar
tipicamente uma e outra.
Pois, o que importa é
visar esses movimentos como estados de espírito, verdadeiras
concepções de mundo e auto-compreensões existenciais, não como
simples receitas ou dogmas estéticos, menos ainda como listas de
obras representativas a serem decoradas como cromos num álbum de
fotografias.
Ora, a novidade da
perspectiva de Goethe, conforme Bakhtin, está nisso pelo que a
natureza, esse fundo de estabilidade contra o primeiro plano da
sobreposição de eventos, esquema que o classicismo francês, assim
como o iluminismo, conservaram intocado, nela se vê transformada de modo
que “nada resta desse fundo imóvel e imutável”. A natureza é
agora mais movente do que a própria atmosfera – Bakhtin referencia
a estranha teoria de Goethe pela qual o segredo das mudanças
climáticas reside no interior das montanhas. Como estas, a seu ver,
estavam constantemente, malgrado as aparências, convulsionando-se,
vibrando e rearranjando-se no seu interior, todos esses espasmos
provocariam as mudanças meteorológicas de cujas causas jamais
suspeitariam os habitantes dos vales.
Os escritores do
século XVIII foram, conforme Bakhtin, os primeiros a ver o tempo,
mas sua representação era demasiado “simples e elementar”. O
que nobilita a perspectiva de Goethe é não somente a agudez de sua
visão, mas a interposição do tempo histórico, humano, numa
temporalidade maior, geológica. É por esse indício que situamos o
adequado aporte do clássico assim como traçado por Bakhtin. Sem
dúvida ele pretendeu, por meio de Goethe, a realização mais
exitosa do clássico, estender uma certa continuidade com o realismo,
a qual foi atravessada pelo romantismo.
É a noção de tempo
e de experiência histórica que irá ser decisiva nessa bifurcação.
O "cronotopo" - conceito que Bakhtin criou adaptando Einstein à teoria da literatura, para designar o que seria a espácio-temporalidade de cada tipo de ambientação romanesca - goethiano será o do rio. A fluência das águas e a
contenção das margens, assegurando um rumo ao curso desse vir a ser
do que assim corre, eis o tempo-espaço ideal da história como esse
fluir regrado. A materialidade e a necessidade da atividade do homem
na história são a chave dessa concepção clássica. Por ela vemos
também o que distingue a visão de Goethe daquela dos seus
antecessores.
Bakhtin trata a concepção iluminista do vir a ser, que no entanto se antepunha às fantasias do além, como racionalidade abstrata em contraposição a de Goethe. A razão iluminista devia pôr em marcha um mecanismo universal, a imagem referencial sendo a do relógio que funciona na articulação indiferente, de direito eterna, de todas as suas partes. A razão de Goethe vê o acontecimento no seu pormenor, naquilo que tem de fortuito mas inteiramente convergente, assim explicável. Uma região como a Espanha, geologicamente analisada, permite compreender toda a história das guerras nela travadas – a impropriedade da batalha regular, o favorecimento das técnicas de guerrilha.
Bakhtin trata a concepção iluminista do vir a ser, que no entanto se antepunha às fantasias do além, como racionalidade abstrata em contraposição a de Goethe. A razão iluminista devia pôr em marcha um mecanismo universal, a imagem referencial sendo a do relógio que funciona na articulação indiferente, de direito eterna, de todas as suas partes. A razão de Goethe vê o acontecimento no seu pormenor, naquilo que tem de fortuito mas inteiramente convergente, assim explicável. Uma região como a Espanha, geologicamente analisada, permite compreender toda a história das guerras nela travadas – a impropriedade da batalha regular, o favorecimento das técnicas de guerrilha.
O tempo é assim essa
marcha contínua, ao mesmo tempo no todo como na parte, que impele ao
futuro desde a experiência, no presente, do passado. A solvência da
estabilidade não acarreta a precipitação no fundo do sentimento,
do arbitrário, do irracional ou do descontínuo. A formação do
savant é, portanto, de início aquela do geólogo e do
paisagista, e é com esse “olho” que é preciso desenvolver o
amor pelas ruínas da Antigüidade. Nada nelas está perdido, mas não
como se fossem, por si mesmas, um ser que acena, que impele a que
interroguemos da sua estranheza a nós, de sua radical exterioridade.
Elas se endereçam a nós, e pelo viés do presente, continuam a
produzir, historicamente, futuro. O cultivo clássico dos modelos
antigos não tem outro sentido em Goethe do que reafirmar a
consecutividade produtiva, laborante, que é a do tempo por meio do
homem.
Quando Marx enunciou
no manifesto “um fantasma ronda a Europa”, falava do comunismo,
como do secreto medo de todas as classes diante daquele Big Other –
o proletário. Mas, se sabemos que por “fantasma” seria mais
próprio grafar “espectro”, como fez Derrida que recenseou assim
a presença dessa sombra desde Hamlet, isso não deixa as coisas
menos misteriosas. Afinal o proletário estava mesmo `a frente de
todos, e devidamente amordaçado, algemado, preso na sua rotina de
fábrica e movimentos absolutamente mecânicos. Por que temê-lo ou
suspeitar da possibilidade histórica do comunismo num momento em que
o máximo a que se podia aspirar era ao utopismo, esse instrumento
que serviu para acomodar o burguês ao novo cenário intelectual
assim como, no dizer de Carpeaux, a hermenêutica de Schleiermacher e
as reflexões lingüísticas de Humboldt? Algo rondava, porém, mesmo
a Europa, algo, um fantasma.
Como se vê com
Bakhtin, esse algo – o Gespensternässiges – era o passado
que não passa, a fusão impossível do passado no presente, o que,
inclusive, deve estar no plural como as ruínas, desde esse momento
goetheano, que não paravam de se multiplicar pelo avanço da obra da civilização. Sentimento romântico em
Goethe, isso contra quê ele, com decisão, se pôs. O fantasma,
conforme o trecho de Poesia e Verdade destacado por Bakhtin,
era transvazado no presente justo quando a impressão que prevalecia
era o sentimento de que, com o passado, o presente forma um todo. No
entanto, a interpretação de Bakhtin soa algo intempestiva, pois o
trecho parece enunciar que o próprio Goethe era imune a esse “algo
de fantástico” assim transvazado ao presente, o estranho a seu ver
sendo que, ainda assim, toda vez que comunicava aos outros o seu
sentimento de homogeneidade do tempo o que suscitava nos outros (“a
todos” os receptores da poesia) era a desagradável, inexplicável
sensação da irredutibilidade do passado.
A interpretação de
Bakhtin, porém, é suportada pela colocação de que a complexidade
do sentimento, quando da experiência do que deveria ser a fusão de
passado e presente, seria a explicação do romantismo de certas
obras de Goethe, traço que prevalecia especialmente, contra o que se
poderia esperar, no período mais precoce de sua atividade.
A experiência do
tempo romântica aparece, nesse texto de Bakhtin, sob o signo da
descontinuidade e do arbitrário. Alvo da hostilidade de Goethe,
plenamente expressa no seu Viagem à Itália, trata-se de um
passado desvinculado, em si e para si, o dos românticos. Semeada
aqui e ali no desenvolvimento do texto, apenas onde o contraste com o
que se quer evidenciar como a perspectiva de Goethe se revela mais
oportuno, afinal esse outro e novo sentido do tempo vem a ser
particularmente examinado através da incursão de Bakhtin à viagem
à Itália de Rousseau. Guarda-se, ainda assim, um traçado em
paralelo com o que vimos de Goethe.
Ora, o que a paisagem
da terra clássica por excelência suscita em Rousseau não são de
modo algum as considerações cheias de realismo goetheanas, ou seja,
não se trata de descobrir dados que explicam este ou aquele evento
ou introduzem informações geográficas. É, sim, a ocasião dos
mais variados delírios poéticos, todo tipo de sugestões
fantasiosas do que poderia haver lá onde a vista à custo alcança,
o cimo das colinas ou o recôndito das margens da estrada. Eis o que
inebria Rousseau e o faz exaltar como qualidade da paisagem. A sugestão dos prazeres, da profusão das deliciosas extrações do labor humano como latões de leite e manteiga, frutos de todo tipo, encontros amorosos da volúpia. Não a
quantidade de referências que abriga – Roma seria o grande
cronotopo da história humana, na visão Bakhtiniana da perspectiva
de Goethe – mas a capacidade de sugerir, de inspirar a fantasia do
poeta antegozando o prazer.
O homem goetheano é
“faber”, produtor racional do futuro arquitetado pela aptidão a
construir mais o encontro com as vicissitudes da natureza, esta
jamais concebida no abstrato, mas local, sempre histórica e
temporalmente situada. O homem romântico, cujo precursor é
Rousseau, é outro material.
Assim, o tema das
relações entre Goethe e os românticos é manejado por Benjamin
inicialmente do ponto de vista da concepção da crítica de arte:
para aquele, esta não tinha aplicação alguma, mero apêndice da
obra, o supremo objeto do labor e da inventiva. Ora, o supérfluo da
crítica se explica somente se a obra contém algo que nela mesma se
mostra como o que é o seu ser. Benjamin contrasta as filosofias de
arte, romântica e goetheana, através da oposição entre Ideia e
Ideal.
A Idéia da arte
romântica envolve a consideração a priorística de um
método, enquanto o Ideal goetheano se revela como o horizonte
conceitual do conteúdo. Este, ele designou em referência ao que na
Antiguidade se creditava como o domínio das Musas. O ideal da arte
seria a soma desses conteúdos puros, o “musal” (Musische),
descontinuamente definidos, isto é, não havendo confusão de
domínios, mas partição exclusiva deles. Seriam como arquétipos
não mediados, por qualquer reflexão, em cada obra que somente
poderia manter com o Ideal uma relação de semelhança.
Ora, esses arquétipos
são, eles mesmos, como ideias platônicas, existentes por si, como
os seres da Natureza. Somente é preciso refratar o natural de modo a
diferenciar o que é derivado, material, meramente visível, daquilo
que é essencial, verdadeiro, relativo ao Ideal e tendo que ser
intuído no que se mostra. É assim que se configura o interesse de
manter os modelos da Antiguidade como referenciais da produção
artística. Aqui a imagem do torso serve como norteadora, pois é
como cada obra concreta, singular, se perfila diante do Ideal. Ela
pode apenas sugerir aquilo que somente no Ideal está completo.
Como nota Benjamin, já
Schlegel ao longo de sua evolução estética se compenetra cada vez
mais da “estimação altamente condicionada” que uma tal teoria
da arte reserva à realização particular. Contudo, o mais
interessante aqui é contrapor à terminologia da hostilidade
Bakhtiniana, de Goethe aos românticos, aquela da revolta que
Benjamin atribui a Novalis em relação ao cânon greco –
goethiano.
A indagação de
Novalis sobre se “existe um espírito universal da Antiguidade”
soa como pretexto da afirmação inteiramente consistente de que, por
um lado, “a” Antiguidade não existe como tal, mas, sem dúvida,
“alguma” Antiguidade existe, aquela que se desvela a uma certa
época. Assim, através do “estudo assíduo e espirituoso”, por
exemplo, veio a ser a que o momento goetheano e romântico conheceu.
Quer isto expressar a interdependência de natureza e intelecção, o
que Novalis reprova na atitude classicista de Goethe sendo a
pretensão da posse de uma natureza do antigo independente das
vicissitudes do saber sobre ele.
Schlegel chegou mesmo
a taxar de risíveis “todos os tipos de poesia clássicos” por
manterem-se regulados por um Ideal dos gêneros antigos acerca dos
quais jamais indagaram se podem mesmo “ser isolados de modo
rigoroso e preciso”, de forma independente de sua relação com o
tempo, com a totalidade da arte e por extensão com o acontecimento
de uma arte tão sui generis como a moderna, romântica.
O que torna a questão
complexa é que a definição mesma de “romântico”, em Schlegel,
se constrói na sua novidade ao longo da recensão do Wilhelm
Meister, romance de Goethe que ele supôs ora como a consecução
máxima da forma, ora como a realização da Ideia da poesia. Na sua
novidade, isto é, naquilo pelo que não apenas repõe o uso comum
anteriormente à voga do estilo que aplicava ao termo “romântico”
o significado de “cavaleiresco” ou “medieval”, ainda que
Schlegel tampouco recuse este uso, mas apenas por um certo
maneirismo.
Como nota Benjamin,
através do exame do Meister, Schlegel constituiu uma teoria
do romance estipulando-o não como uma espécie de escritura
contínua, mas como uma articulação inteligente das partes ou
“peças”. Estas, sistemas fechados e como que autônomos, põem-se
a refletir-se ao infinito, o romance atuando como uma ideia que
sempre e repetidamente se auto-contempla. Ora, ao mesmo tempo e algo
paradoxalmente, essa atribuição do romance goetheano implica na
impossibilidade de contê-lo no gênero romance, pois torna-se a
atribuição da poesia mesma, enquanto metonímia da arte.
Se a arte é o
continuun das formas, o romance, tendo como protótipo o Meister
de Goethe, é “a aparição apreensível desse continuun”
que resulta da articulação das partes. Todo romance aspira, na sua
realização, à perfeição deste. O romance em geral não é apenas
um gênero entre outros, mas aquele que realiza a Ideia da poesia, “a
forma suprema da reflexão na poesia” ou “a forma poética
suprema”, nas fórmulas de Benjamin.
O resultado algo
surpreendente é que a prosa se torna a Ideia da poesia, mas o que se
está por esse meio exigindo é algo ainda mais original. A
impossibilidade de se estipular qualquer cânon ou regra para a
realização da poesia. “Prosa ornada” se torna o pejorativo
termo atribuído às obras clássicas, pois mais próximas devem ser
creditadas à retórica do que ao intuito poético autêntico.
Creio que a introdução
do verso branco pelo romantismo encontra nessa conexão com a boa
prosa uma relação intrínseca, conforme Benjamin a concepção da
Ideia da poesia como prosa tendo determinado toda a filosofia da arte
romântica. A recusa das leis rígidas do ritmo ou da rima tão bem
expressa pela adoção do verso branco conduzirá, por sua junção
com o que veremos posteriormente ser a concepção de formação dos
românticos, ao que Benjamin designou como “a quebra desta teoria
com as visões tradicionais acerca da essência da arte”. Não mais
se trata, assim, de produzir a beleza, recusa-se mesmo o conceito de
beleza a ponto de afirmar-se que “as obras de arte superiores são
pura e simplesmente desagradáveis”
Confrontando a teoria
do romance enunciada por Benjamin como tipicamente romântica, com
aquela que Bakhtin atribui a Goethe, o proveito é enorme. Ocorre que
ambos os autores pensam estar diante de teorizações que manterão
uma atualidade, uma vigência, por toda a história da literatura
designada moderna, que desde aí começa a transcorrer, ora do ponto
de vista do que habitualmente se rotulou como moderno – do
simbolismo à vanguarda – ora do ponto de vista oposto, mas
igualmente rotulado, aquele do realismo. Pelo menos num ponto veremos
que, se as duas concepções visadas não poderiam ser mais opostas,
remetem a um mesmo e incontornável núcleo, o tema do progresso e da
concepção do futuro, o que envolve o conceito de tempo e história.
Mas outros núcleos se interpõem, também de modo inevitável, como
os da necessidade da arte, do sentido da formação e do papel da
crítica.
Ao desenvolver uma
teoria do romance que insere o gênero como um terceiro termo após a
enciclopédia e o folclore, Bakhtin está ao mesmo tempo tratando da
evolução de uma velha forma, digamos, “musal”, no sentido de
Goethe, a epopeia, isto é, como um arquétipo ou forma no sentido
mais usual que o termo conota para um especialista em estudos
literários, quanto está estabelecendo um critério do romanesco que
o estabelece como sinônimo de romance realista. Quanto ao primeiro
aspecto dessa colocação, vemos que nisso não parece haver um hiato
profundo entre o que é assim conotado para um especialista moderno,
que se considera um “cientista” ou “teórico”, e para um
antigo savant das humanidades ou letras clássicas. Na
superfície, para ambos a forma é algo canônico, que pode ser
designado estipulando-se os seus princípios, suas normas de
composição, e descrevendo o seu resultado, como os limites de sua
realização. Mais profundamente, podem diferir no essencial, como
quando se trata de decidir sobre a validez desse cânon, ou sua
origem e natureza. Mas nesse ponto o que se mostra mais importante é
a semelhança, a continuidade aparente.
Quanto ao segundo
aspecto, nós o compreendemos mais se apreciarmos o desenvolvimento
da argumentação de Bakhtin, que irá abranger aquela transposição
de gêneros já apontada. Inicialmente é preciso ver que o essencial
da forma, enquanto épica, que fornece a articulação histórica
desses espécimes, é sua relação básica, fundamental, com a
totalidade. Ou seja, trata-se, na forma épica, enquanto substrato de
qualquer narrativa, de refletir o mundo e a realidade existencial por
inteiro. A forma não intenciona apenas aquilo que ela efetivamente
logra, apresentar uma “imagem de conjunto do mundo e da vida”,
isso “pelo ângulo de uma época considerada em sua integridade”.
Intenciona, sim, substituir toda a época e aquilo que lhe serve de
conteúdo, aquilo que Bakhtin designa a substancialidade artística
consistindo na aptidão da épica para “fornecer um substituto ao
todo da realidade”.
Ora, sendo assim, o
romance, espécime que a forma época abrange, já tem aqui o seu
critério de qualidade. O julgamento crítico só pode ser de corte
realista pós-romântico, pois o significado artístico, a substancialidade do
romance, é função do “grau de penetração realista no todo da
realidade”, quase se poderia dizer, assim, haver para a crítica a
possibilidade de entrever o quantun de substancialidade
artística contido num romance.
Não creio que essa
colocação possa ser desvinculada da perspectiva marxista mantida
por Bakhtin, se bem que tão própria dele, tão decididamente
afastada da ortodoxia redutora. Em todo caso, temos a chave do
romance goetheano, pois a movência da natureza, que deixa de ser,
ora um pano de fundo estático, para vir a ser a materialidade do
mundo onde tudo é visível, concreto, ao mesmo tempo em que tudo o
que se desenrola e apresenta nele está marcado por uma necessidade
que é a mesma na atividade como no pensamento, eis a captação do
todo de uma época em que esse mundo inteiro estava completando a sua
curva de auto-delimitação histórica desde as brumas de três
séculos antes. Ou seja, ele estava se transformando rapidamente mas
essa transformação só o conduzia para a auto-delimitação, a
objetificação dos seus processos para si mesmo, a clarificação de
si como algo inteligível, com a inteligibilidade sendo função
desse binômio, necessidade e materialidade.
É assim que as
figuras retóricas se tornam desvalorizadas na estética clássica, em prol de
uma retórica limpa e sóbria, informativa, em prol da clarté.
Compreende-se o papel da alegoria medieval e da antítese
infinitizada barroca. Trata-se de, respectivamente, ora manter o
fantasioso no contexto de suas transfigurações, de modo que um dos
efeitos tangenciados é o vislumbre do que no cotidiano temos por
“assim”, ora de reproduzir o deslocamento infinito da ideia no
real que abrange essa matéria pura, esse limite do pensamento, a
extensão. A era em que emerge o iluminismo viu, justamente, a
inapelável regressão da “ massa absoluta do real”, como se o
que houvesse recuado fosse a extensão da era clássica. Junto com o
além e o mítico, era a visão estática, dualista, cartesiana, que
estava se impossibilitando. É nesse ponto que Bakhtin localiza o
romance goetheano.
A composição
enciclopédica sempre deve ter sido a do romance, desde que a ambição
enciclopedista é a captação da totalidade do mundo refletida, isto
é, nesse sentido, sobreposta pelo novo todo que assim se destaca
sobre a totalidade do real feita, pela linguagem do romance,
extrínseca. Mas temos o romance verdadeiramente moderno quando, com
Goethe, não é apenas com uma totalidade feita de pedaços, mas com
um modelo do todo que o romance se relaciona substitutivamente.
No primeiro caso temos
o grande romance renascentista e barroco, Rabelais, Cervantes, a
totalidade é apenas a junção das partes que se conhece, logo,
sabendo-se que a totalidade é incompleta ou fantasiosa. Com Sterne,
Fielding, Goethe, ou seja, desde o século XVIII, a integridade do
mundo não se perde por menos que a enumeração das partes
conhecidas possa ser exaustiva, devido à limitação incontornável
de tempo, lugar, utopismo e simbologia, inerente à construção
mesma do texto. É que o modelo inteligível do mundo está a caminho
de se completar pela integração de tempo – está nascendo a forma
da historiografia moderna – e espaço, pois já se efetivou a
expansão territorial europeia responsável por aquilo que Marx
designou a acumulação primitiva de capitais, pré-requisito da
revolução industrial e do contexto capitalista do neocolonialismo.
Contudo, aqui o
pensamento de Bakhtin revela sua nem sempre tão visível vocação
dialética. É que o romance parece completar essa sua destinação
enciclopédica justamente quando ele se autonomiza como gênero, ou
seja, liberta-se da forma da enciclopédia e do tipo de erudição
com vistas à totalidade que emergiu exemplarmente com Bayle, mas
também do ciclo épico que tipifica a construção textual do
“grande romance” anterior, como Gargantua e Pantagruel ou o Don
Quixote.
O ciclo épico, tão
característico da narrativa medieval, que inspira fortemente o
romance de cavalaria, inexiste no romance moderno, não importando
nem mesmo o fato de que, por vezes, um autor pode repetir,
desenvolver em volumes ou reintroduzir, alhures, um personagem ou uma
temática. Mas se nossa leitura de Bakhtin é atenta, compreendemos
bem porque as duas formas são ao mesmo tempo superadas na consecução
do romance moderno. Aquilo que ele visa como o modelo de totalidade é
algo surpreendente, pois não se trata de um conjunto de verdades
adquiridas e dispostas de tal modo que poderiam nos fornecer uma
descrição de todo o existente. O modelo, nesse caso, é o passar do
tempo e o modo pelo qual se dá o progresso temporal. É a conquista
da impermanência que tem como troféu a emergência do romance,
assim como compreendemos habitualmente o termo, forma narrativa que
impera hoje onde antes o fazia a épica. Mas essa conquista só se
efetivou quando coalesceu a visão de mundo eivada daquela
necessidade e materialidade do romance goetheano, onde é imperioso
que o passado só exista em função do presente e do futuro. A forma
do transcorrer temporal precisa ser inteligível no pormenor, e isso
significa, nos acontecimentos e no seu encadeamento prosaico.
Tanto que entre a
enciclopédia, no sentido restrito do termo, e o romance, Bakhtin
coloca essa forma insipiente de transição da épica à narrativa
moderna que é o folclore. Não que Bakhtin tenha minimizado a
qualidade e importância do gênero em si. A exemplificação pela
obra de Walter Scott o comprova. Mas o que distingue a narrativa
folclórica do romance goetheano-moderno é o fato de que as lendas
nacionais, as ruínas dos castelos, tudo o que pertence ao passado lá
está desprovido de relação com “a atividade criadora do
presente”, de modo que “pertence a um mundo fechado”. O
presente é apenas “receptáculo das recordações do passado”,
de modo que não o encerra na sua forma atuante. Inversamente, na
visão histórica do mundo o passado está vivo, ativo, no presente
que só podemos apreender por ele, pela compreensão de sua atuação
e vigência aqui e agora. Assim, Bakhtin descobre o momento exato em
que, das formas que manejam o cronotopo folclórico como as do
romance gótico e biográfico, Scott logra assimilar o “drama
histórico”, momento, justamente, da superação do “fechamento
do passado”, quando o autor “domina a plenitude do tempo”, o
que é típico do romance histórico.
Mas no entremeio,
entre o exame do desenvolvimento do projeto histórico-romanesco
registrado pela evolução dos títulos de Goethe e a exemplificação
da limitação do folclore, que o contrasta, curiosamente Bakhtin
situa o “cronotopo da natureza” que é manifesto em Jean Jacques
Rousseau. Bem oposto ao fluir do “cronotopo do rio” goetheano,
onde o tempo transcorre tão disciplinadamente quanto as águas
limitadas pelas margens, e com rumo bem definido, essa natureza
rousseauísta não é o fundo consequente e necessário da história.
É a própria “historicidade real do tempo” que nesse “tempo da
natureza” se mostra “todavia pouquíssimo sensível”.
Essa natureza,
portanto, está se colocando por um viés terminológico cuja
apreensão do que lhe é oposto exige novos parâmetros. Até aqui a
compreensão da história pareceu se dever a uma estipulação plena
da natureza enquanto modelada pela ação inteligível do tempo, de
modo que não há, aparentemente, no cronotopo do rio, qualquer
oposição entre natureza e história. É porque o tempo da história
é uma temporalidade natural, evenemencial, não escatológica nem
simplesmente caótica, que ele pode se mensurar como o fluir de um
fenômeno natural, as águas de um rio. Mas, sob outro aspecto, essa
história que agora está emergindo de um fundo de erudição para
conquistar a superfície do saber não é “natural” no sentido do
conhecimento da natureza que se praticava ainda no século XVII. O
que me parece ocorrer, contudo, é que em Goethe ainda se poderia
preservar uma distinção simples, cujo corte perpassa apenas no
entremeio de história natural e humana. Aquela solvendo-se na
multiplicidade crescente de saberes especializados que vão implicar
na descoberta evolucionista, esta estabelecendo-se metonimicamente
como a parte pelo todo, como “a” história geral. Mas não é a
evolução, precisamente, esse pensamento de uma temporalidade
imanente à natureza, algo vedado inteiramente à “história
natural” da época clássica?
Assim, a oposição
subjacente a algo como o “tempo da natureza” rousseauísta,
conforme a expressão de Bakhtin, apela para uma conceituação
irredutível a tudo o que se constitui na proximidade da emergência
do romance goetheano. Frente ao homem construtor, situado no interior
desse “sistema vivo, visível, sensível”, que é a natureza
geológica e geograficamente apreendida, esse homem que somente aí
– vimos porque – desenvolve (constrói) a sua “atividade
histórica”, ergue-se o homem biográfico de Rousseau, alheio à
materialidade e necessidade como caráter constitutivo do tempo
histórico, pois para ele somente contam o idílio, a voluptuosidade,
o passatempo, o amor, isto é, tudo de fortuito que compõe sua
biografia como narrativa essencialmente subtraída da necessidade que
então compreendemos como “histórica”. A oposição assim
construída passa, portanto, entre o interior e o exterior, entre o
indivíduo e o seu tempo, entre sujeito e sociedade, entre o eu e o
mundo.
O que Bakhtin,
manifestamente tendencioso na sua preferência do realismo como
parâmetro interno do romance moderno, parece não pretender notar é
que a transposição do objeto, da necessidade para o desejo, encerra
mais do que um fechamento utópico. Inicialmente ele nota que uma tal
recorrência do desejo não supõe a temporalidade como
desenvolvimento. O tempo é como que atomizado em acontecimentos como
que autônomos, os festins campestres , os encontros apaixonados, os
passatempos. Eles seriam, assim, cíclicos, mas não como na tradição
do epos medieval, abrangendo um transcorrer de períodos nítidos, e
sim, creio, mais como poesia do que narrativa, um retorno, uma
repetição autêntica.
Bakhtin concede que a
percepção do tempo em Rousseau, cuja atribuição ele caracteriza
em termos do transvazar da fantasia subjetiva, da emoção e da
recordação no contemplado, não se esgota nisso, comportando
“aspectos infinitamente mais profundos”. Mas o que antepõe para
justificar essa observação, que não é do seu interesse naquele
trecho desenvolver, é que Rousseau também conhecia o tempo do
trabalho, biográfico no sentido de histórico-familiar, ou seja,
também soube manejar as cordas do romance realista.
Parece-me que Bakhtin
aqui converge na crítica benjaminiana da emergência do romance –
no que ele pode ter de não-realista - como instrumento de uma
consciência individualista burguesa. Jeanne Marie Gagnebin coloca
esse tópico com bastante nitidez. Trata-se da oposição interior à
obra de Benjamin, que se expressa ora entre dois conceitos de
experiência, como Erfahrung e como Erlebinis, ora
entre a espessura das obras de Proust e Kafka. Os dois temas
articulam a relação que aqui estamos descobrindo ser essencial,
entre o conceito de história e de temporalidade e a criação de
critérios orientadores da compreensão da arte na modernidade.
Os conceitos de
experiência são assim antepostos ao longo da obra de Benjamin, para
iluminar a anteposição de um envolvimento histórico
pré-capitalista àquele que veio a ser desde a ascensão da
burguesia. Mas se a Erfahrung enuncia esse envolvimento social
autêntico, onde o passado forma uma continuidade com o presente, é
imanente a ele sob a forma dos próprios costumes, trabalho,
gestualidade e tradição, que caracterizam a “organização social
comunitária”, conforme ela, é igualmente o que constitui a
possibilidade mesma da narrativa no seu sentido mais autêntico.
Narrar, nessa acepção,
supõe uma comunidade de recepção, de modo que o narrado repousa
sob o comum perceber do que veicula, a experiência aqui sendo a de
uma comunidade de sentido ou de significado garantida pelo
conhecimento dos núcleos temáticos que suportam a narrativa. A
sociedade tradicional possui essa experiência porque comparte os
mesmos gestos na produção mesma, que é artesanal e comunitária. O
passado, portanto, se institui como o fundo comum de significado
apenas porque sua relação com o presente não é de transitividade,
de progresso, e sim de reposição, de integração, de tradição.
Sem dúvida há assim
na obra de Benjamin uma dimensão “nostálgica e romântica”,
conforme a expressão de Gagnebin, mas ela supõe que isso
progressivamente se anula nessa obra à medida em que Benjamin começa
a vislumbrar na contemporaneidade possibilidades de realização que
compensam o que até então se conceituou como uma perda, a saber, o
depauperamento gradativo da arte de narrar como da experiência
vivida no sentido da Erfahrung. Essas possibilidades seriam as
da vanguarda, onde a perda da aura, correlato daquela degradação da
experiência comum, se vê superada pela busca de uma objetividade
original, fruto da criação do artista.
Mas nas duas pontas do
processo, tanto na Erfahrung dos inícios quanto na novidade
dos fins, situa-se o inimigo comum, a saber, aquela experiência que
não é comunitária, que não é, nem mesmo, de certo modo,
transmissível, por ser inteiramente individual, a Erlebnis.
Essa é a experiência que o conteúdo do romance moderno constitui,
pois ela surge como o correlato da formação de uma sociedade
capitalista, onde a produção não se faz pela gestualidade comum de
uma comunidade, mas de modo retalhado, de modo que “a experiência
vivida” se torna aquela “característica do indivíduo
solitário”.
Vejamos o que ocorre
entre Proust e Kafka. Naturalmente ambos já se situam num horizonte
histórico que é da Erlebnis, não da Erfahrung. Mas o
que pode ter ocorrido com a concepção de passado, nessa
contingência, se por esse termo costuma-se compreender justamente o
que é comum, a tradição, do mesmo modo que a história é essa
narrativa do que transcende por definição o individual, o fato
histórico sendo aquele que funda a realidade comum de um povo?
De certo modo é como
se Benjamin houvesse descoberto uma oposição não tematizada até
então, aquela entre romance e história, algo que poderíamos então
localizar como fator de distinção entre o romance e a forma
ancestral da epopeia. Esta não suporta uma oposição assim, seu
papel sendo a de fundadora do passado no sentido de tradição. O
romance é uma linguagem inventada, forjada, para corresponder ao
sujeito que emerge por sua irredutibilidade à história. Está
fundada a oposição entre sujeito e sociedade.
Ora, o romance
realista traduz o ímpeto para contrafazer esse efeito colateral da
indústria e do progresso. Na sua origem, como em Goethe analisado
por Bakhtin, o que ele saúda é a positividade que se entrevê na
emergência da sociedade moderna, capitalista. É a aspiração do futuro,
a celebração do ser humano que, como nunca até aqui, ousa afrontar
o destino como criação de suas mãos. Essa marca percorre toda a
modernidade, como na concepção de Otavio Paz, sendo o que distingue
a pós-modernidade, o abandono dessa convicção.
Eis por que, ao que parece, interessa a Bakhtin manter a continuidade
entre romance e Epos. É somente o romance na sua acepção derivada
do romantismo que se torna problemático. Vemos inclusive que a
superação da Erlebnis, em Benjamin, aponta para a
objetividade, a Sachlichkeit – Bauhaus, Döblin, Chaplin,
Cubismo – como caminhos sugeríveis de oposição ao
“sentimentalismo burguês”, na expressão de Gagnebin.
Entre Proust e Kafka
subsistem as duas críticas possíveis da Erlebnis e do mundo
que a possibilitou em termos de experiência burguesa individualista,
de narrativa do incomunicável. Proust reconstrói o passado, isto é,
recusa “a impossibilidade da experiência tradicional na sociedade
moderna”, conforme ela, ao revitalizar Mnemosine, a Memória. Kafka
apresenta e torna visível o esquecimento, denunciando o absurdo
moderno, a “doença da tradição”, como na expressão de
Benjamin em carta ao amigo Gershom Scholem. Ambos representam,
portanto, tentativas de escapar `a camisa de força da
incomunicabilidade e `a pobreza da experiência reservadas ao ser
humano na modernidade, seja pela via da memória, seja pela via da
denunciação do esquecimento.
Mas aproximando-nos
com mais cuidado de Rousseau e do cenário de transição ao século
XIX vemos que algo essencial de seu texto não se tematiza na
determinação que dele se depreende em Bakhtin. É que todos esses
tópicos que este trata sob uma só rubrica, aquela do individualismo
definido principalmente em termos de separação “do tempo real e
da necessidade”, falam de algo mais do que uma experiência falha
do Outro, uma experiência da solidão e da falta de um horizonte de
significado partilhável. Falam, a meu ver, do que é intrínseco ao
ser humano, o desejo em seu estar absolutamente presente. Assim,
quando Rousseau vislumbra a paisagem campestre na viagem a Turim, o
que ele imagina são as festas que podem ter lugar dentro das casas,
as “brincadeiras alegres” que podem se desenrolar nos
prados, os banhos, os passeios e a pesca “ao longo das águas”
as “conversas a dois” sob
as “sombras voluptuosas” das árvores que ainda podem
estar repletas de “frutas deliciosas”, os “latões de
leite e nata” nas montanhas, fundamentalmente “a paz, a
simplicidade, o prazer de ir sem saber aonde”.
A terra jamais fica
deserta tendo-se um poder de imaginação assim. Mas o resultado não
parece ser o isolamento e sim, através da fantasia, o vislumbre de
uma “sociedade encantadora” de que o homem pode,
finalmente, não se sentir indigno por ter sido ele, ao expulsar “a
opinião, os preconceitos, todas as paixões artificiais”, que
transportou para esses “asilos da natureza” aqueles que
merecem habitá-los. Bakhtin designou utópico justamente essa
impressão de ter feito ou ressuscitado algum “século de ouro”,
mas apenas na imaginação, de modo que é nisso que localiza a
separação da interioridade em relação ao tempo real ou à
história.
Mas o que ocorre não
seria mais como a descoberta da realidade do ser humano – conotada
exemplarmente pelo desejo de afastar o que lhe é artificial,
imposto, postiço como saber meramente idealizado da totalidade universal? O acontecimento histórico pode bem ter
determinado um presente que é essa artificialidade, essa imposição,
de modo que a descoberta de uma temporalidade autêntica do humano
poderia exigir a denunciação de sua pretensão narrativa-modelar –
de sua falsidade enquanto prerrogativa de totalidade. Pois ela deixa
de fora o essencial, aquilo que impele o ato humano e que lhe
informa.
O profundamente
contraditório nessas críticas de sabor histórico-materialista,
como as de Benjamin e Bakhtin, é que se alimentam de uma constatação
que só pode ter vindo a ser no contexto de uma linhagem
rousseauísta, por assim considerar, manejando apenas a oposição
das vertentes originárias do romance moderno, clássica, realista,
versus sentimentalista, pré-romântica ou romântica. Essa
descoberta é o lote dos pensamentos mais ousados do século XX, e
poderia ser designada como aquela espessura do sentido, que vimos
Heidegger conceituar através do poema de George. Um enunciado que
manifesta exemplarmente a interpretação de Heidegger, a meu ver, é
aquele de Bakhtin em O Problema do Texto: Onde não há
texto, também não há objeto de estudo e de pensamento", sendo que o
sentido do termo referencial “texto” está aqui sendo utilizado
expressamente numa oposição à “língua” que vem a ser o
objeto até aí da lingüística.
O interesse de Bakhtin nesse momento da afirmação textual da necessidade do texto, é mostrar que o fundo comum das ciências do humano é o texto, enquanto que as ciências da natureza buscam na objetividade, na exterioridade das coisas, o seu horizonte de pesquisa. Assim, as ciências do humano são sempre e basicamente uma atividade dialógico-textual, de modo que uma Textologia lhes forneceria o instrumental mais necessário. A nós importa nesse ponto mais aquilo que se esboça como conteúdo fundamental da textologia, sendo o que ressoa com as outras tentativas em curso, inclusive contemporâneas a esta, de localizar a impossibilidade de confundir sentido e significado.
O interesse de Bakhtin nesse momento da afirmação textual da necessidade do texto, é mostrar que o fundo comum das ciências do humano é o texto, enquanto que as ciências da natureza buscam na objetividade, na exterioridade das coisas, o seu horizonte de pesquisa. Assim, as ciências do humano são sempre e basicamente uma atividade dialógico-textual, de modo que uma Textologia lhes forneceria o instrumental mais necessário. A nós importa nesse ponto mais aquilo que se esboça como conteúdo fundamental da textologia, sendo o que ressoa com as outras tentativas em curso, inclusive contemporâneas a esta, de localizar a impossibilidade de confundir sentido e significado.
Nessa proposição de
Bakhtin é a coerência que faz de um texto, um texto, definição
que se preserva atualmente na gramática textual que tem por objeto a
produção e interpretação de textos. Ora, a coerência, que na gramática textual se define como o tema e o endereçamento por oposição ao nível coesivo do modos de encadeamento das palavras, não é um
assunto meramente de lógica, e sim de produção de sentido,
envolvendo algo como recorrência, repetição e diferença. São os
pressupostos de sentido que se criam pelas construções textuais que
instituem a expectativa e o consentimento da recepção. Um texto
que cria a expectativa de naturalidade quanto a um menino ter o dedo
verde ou ter asas como em exemplos da literatura contemporânea,
estabelece uma coerência como um horizonte de sentido em que ele
atua, ao mesmo tempo a limitação e a abertura dos seus
significados.
Entre o texto e a
língua há, portanto, a importante diferença de que na língua, que
se compreende como sistema de signos, existe uma lógica comum,
extensível a todos os sistema de signos, uma língua das línguas.
Mas não há o texto dos textos. Conforme Bakhtin, os textos,
enquanto acontecimentos, eles sempre ocorrem nas fronteiras de duas
consciências, dois sujeitos, isto é, entre a produção e a
recepção.
Já Benjamin, como
notou Gagnebin, progressivamente se concilia com a noção de que há
uma positividade na perda da tradição como expectativa de um
horizonte textual único, potencial, de todo o sentido humano. O que
assinala a viragem poderia ser simbolizado através da narrativa do
serviçal que herda do Imperador moribundo a tarefa de propagar a
mensagem que lhe é segredada ao ouvido. Ocorre que o caminho do
serviçal se vê interceptado pela complexidade labiríntica do
espaço burocrático do reino que se estende e ramifica cada vez
mais. Assim também, seria como se o comentário ("hagada"), da
tradição hebraica, houvesse se tornado repentinamente autônoma em
relação à Halasha, o texto sagrado que ele deveria vir
apenas atualizar e complementar. Tendo-se perdido a unicidade como sentido imediato do texto sagrado à comunidade primitiva, a modernidade seria como a multiplicação profusa e
incontrolável dos comentários, produtora de sentido.
Pois torna-se
inevitável refazer o percurso do Benjamin inicial à filosofia da
linguagem de Bakhtin, constatando que, se o horizonte perdido do
discurso narrativo era uma prática tradicional comum, são e
continuam sendo as práticas existentes que asseguram a
multiplicidade de gêneros constitutivos do fenômeno lingüístico
que só podemos compreender tendo por horizonte a sua realização
com o texto.
Mas por aí Bakhtin
colocou a ênfase de sua teorização na alteridade, no dialogismo,
no Outro, o que, a meu ver, permite juntar a sua perspectiva do
romance como abrangendo um critério crítico intrinsecamente
realista, e sua concepção materialista da história. No entanto, a
noção de espessura do sentido não poderia ter surgido, a meu ver,
somente da temporalidade goetheana, principalmente devido a que ela
se dirige à totalidade do real como modelo do transcurso histórico
do tempo concebido como desenvolvimento.
Já com Heidegger
podemos introduzir o problema subjacente à essa intenção realista
que permanece como tensão no dialogismo backtiniano, se ele não
pretende se reduzir à unidimensionalidade. É o que está por trás
da crítica heideggeriana à linguística, mas que se insinua
notavelmente nos seus comentários acerca dos gêneros informativos.
Aparentemente seria que a linguística, como vimos com Bakhtin, lida
com um formalismo puro do signo, ali onde a prática só existe onde
o objeto desse formalismo se reduz a uma abstração. Logo, a
informação seria um gênero entre outros, o problema sendo apenas
querer adotá-lo como o modelo do funcionamento da linguagem. Mas na
realidade o que Heidegger está denunciando nesse querer é algo mais
profundo. É uma falsificação, uma mistificação radical do nosso
modo de vida.
Tudo gira em torno da
comunicação reduzida a um sentido tal como se a informação pudesse fornecer o mecanismo
evidenciado e presentificado da forma de todo saber. Mas o que ocorre
na verdade é a impossibilidade da informação nesse sentido ser um saber. A
informação conta um fato que jamais se acompanha de uma explicação
de fato. E, de fato, isso seria impossível, pois o que ronda o fato,
como ao ente, é o Ser, como o mistério de ser. A proveniência contextual é abstraída para fazer parecer que o fato solto comunicado é tudo, encerra ele mesmo o sentido. A informação
se fornece como tudo o que há para saber do fato, ou seja, que tudo
o que há para saber tem a forma de um fato. Vivemos num mundo
aparentemente de total transparência e clareza, quando na verdade o
que ocorre é que cada vez sabemos menos sobre os reais motivos que
impelem o mundo em que vivemos ser o que é e apresentar os fatos que
apresenta.
A informação cria
um objeto chamado fato. O acontecimento lhe escapa por todos os
lugares. Isso que é comunicado como informação não existe. Pois
seria como supor que existe “Pedro curou o dedo ferido” sem o inteiro
sentido, não somente as condições, o passado, mas o horizonte, o
enraizamento integral desse evento, mais a multiplicidade de suas
implicações. A infinitude como a razão de ser dos “fatos”
jazer num meio de sentido do qual eles não podem ser destacados como
se existissem por si mesmos é o que se oculta para a informação
fabricar esse pseudo-objeto, essa falsa impressão do conteúdo de um
saber.
Não basta juntar
fatos, é necessário um modelo do real. Mas como esperar que ele seja
fornecido como totalidade, se a história, a transcorrência de um
tempo linear, só pode enunciar a junção local de contingências
factuais?
O período que estamos
examinando, na transição ao século XIX, a meu ver, tem seu cerne
intelectual nessa questão. É a transição do pensamento de Kant ao
de Hegel que o ilustra mais simplesmente. Seja o transcendental
kantiano e a dialética hegeliana. E do mesmo modo, seja o
interlocutor que fundamenta a prática do discurso, conforme Bakhtin,
e a comunidade de comunicação transcendental de Karl-Otto Apel. Na colocação
kantiana há um corte único, originário, que institui o fenômeno
para si. A novidade aqui é esse destinar que é ao mesmo tempo um
vir, um ter vindo de. Mas fica fora do ato original, vazio, formal,
todas as posições que mapeiam o fenômeno. Assim a comunidade de
comunicação parece subentender apenas o interlocutor e a
contingência fundadora da interlocução na linguagem. Mas o que se
faz, mais precisamente, é instituir como derivados todos os
interlocutores e interlocuções reais. Erige-se uma forma que vai
instituir universalmente todas as possibilidades no real, o caráter transcendental da comunidade.
Já na dialética de Hegel as posições contingentes do fenômeno o articulam de modo imanente ao fenômeno, não sendo derivados do que o condiciona, mas constitutivos dele. Como no dialogismo backtiniano, pois o interlocutor não se dá como um horizonte formal, e sim numa oposição dialética, fundadora, com o locutor. A síntese é a prática que os fundamenta enquanto uma situação de linguagem. Mas assim também se espera que o novo surja, a oposição não se pondo num vazio ou numa forma, mas numa tensão local, na solicitação provinda de provocações diversas coalescendo no horizonte histórico.
Já na dialética de Hegel as posições contingentes do fenômeno o articulam de modo imanente ao fenômeno, não sendo derivados do que o condiciona, mas constitutivos dele. Como no dialogismo backtiniano, pois o interlocutor não se dá como um horizonte formal, e sim numa oposição dialética, fundadora, com o locutor. A síntese é a prática que os fundamenta enquanto uma situação de linguagem. Mas assim também se espera que o novo surja, a oposição não se pondo num vazio ou numa forma, mas numa tensão local, na solicitação provinda de provocações diversas coalescendo no horizonte histórico.
Poderíamos traçar as
linhagens kantiano-iluminista-clássico-realista versus a
hegeliano-romântica? Na verdade isso não seria muito proveitoso.
Pois há uma certa equivalência na interpretação que afinal reúne a dialética no
horizonte transcendental que é a concepção de um espírito ou
razão universal impulsionando à síntese e ao seu desdobramento na
futura tese. Nessa interpretação, a expectativa do Outro, se dialética, objetifica a
relação de alteridade enquanto esta é necessariamente posta a um
sujeito. Sendo assim, vem que o absoluto é, de modo igualmente
necessário, o atingir do caráter objetivo da Ideia, o subjetivo é
apenas o meio para a história enquanto esse lugar onde a
subjetividade se anula, sobretudo ao realizar-se, mas nada sobra,
tampouco, da alteridade, feita ela mesma subjetividade a anular na
consecução do Objetivo, e assim ao infinito.
Mais proveitoso seria
colocar Kant e Hegel como os momentos inicial e final de uma luta
contra o mais autêntico fenômeno da modernidade, a anulação do
conceito de tempo exigido por uma história. Nesse sentido o ciclo e
a reta se equivalem. Ambos são fundados por uma meta-narrativa da
totalidade.
Ambos instituem assim
o que se poderia acertadamente, como fez Backtin, estender em termos
de uma continuidade da formação do classicismo do século XVIII ao
realismo do século XIX, tendo Goethe como a figura principal. Mas
será preciso observar o que o realismo sobrepôs ao discurso
classicista, devido a sua posição já respondendo à provocação
romântica, ou seja, à irrupção da Modernidade, em outros termos,
visualizando em que ele também é "contemporâneo".
Um modo de se colocar
o problema será aquele que envolve o passado. É interessante como a
temática do fantasma aflorou nessa colocação. Ora, o universal que
sempre reside por trás do horizonte de Objetividade deve ao mesmo
tempo combater o fantasma e radicar-se no passado como fonte da
inteligibilidade do porvir. Compreendemos a dificuldade se
observarmos o percurso da hermenêutica, intimamente relacionado com
a emergência da voga romântica. Inicialmente se pode notar como
isso repercute no século XX. Assim, Heidegger irá colocar o que é
autêntico, as estruturas existenciais, por oposição à sua leitura
pelo Impessoal. Ora, a forma reflexiva impessoal alemã envolvendo
man, assim como a francesa envolve on, das Mann
é esse ser todo-mundo que a técnica impõe ao modo de ser fático.
É como o ser-se que margeia toda prática ou atributo,
conquistados na autenticidade do seu vir a ser, mas derivados formalmente como o
que todo mundo pode fazer ou atribuir, ter feito ou sido atribuído.
Como Deleuze mostrou
bem na Lógica do Sentido, a partícula reflexiva é o modo do
fantasma ser dito na linguagem. Não é esta ou aquela criança que
est battue, é-se battue ao “vê-la”, ou
fantasiá-la, apanhar. É o modo do fantasma só poder ser dito na
linguagem. O fantasma, de certo modo, transpõe o
acontecimento num fato que só pertence ao ser do passado, mas de
modo que o passado nele Se furta ao Tempo. O fantasma corresponde ao traço mnésico da experiência originária relativa ao acontecimento, traço que possibilita alguém repetir o enunciado daquele acontecimento quando é o caso. Se o presente são os acontecimentos atuais presenciados, ele só se possibilita pelos traços mnésicos de um passado originário, virtual, engramático. Inversamente a
Heidegger, Deleuze investirá positivamente o “devir todo mundo”,
pois não o compreende sob a forma reflexiva do fantasma, e sim sob a
forma liberta da linguagem virtual, até mesmo esta sendo concebida pela sua
exterioridade, não como a comemoração de si como tradição.
Linguagem, portanto, liberta da hermenêutica, elevada ao estado de
Variação Contínua dos traços formativos, assim como a memória que está sempre se reelaborando exceto nos casos patológicos, diagnosticados como fixações nas fases narcísicas anteriores à maturação do ego .
Assim se repõe o inconsciente romanticista num pós-realismo contíguo às vanguardas modernistas, porém afirmando-se como momento crítico ao romantismo pela crença deste numa subjetividade originária. Com efeito, desde inícios do século XX a psicologia descobriu o interregno formativo da subjetividade, os três primeiros anos da vida infantil, somente após os quais coalesce a auto-consciência como sujeito independente dos outros sujeitos e dos objetos. Nas escolas de psicologia como de Wallon ou Janet, trata-se de compreender que estruturas são subjacentes ao "sub-consciente", somando-se até que possam resultar na consciência subjetiva, como a psicomotricidade ou as condutas. Na psicanálise de Freud o termo é "inconsciente" para designar um sistema de objetivação independente do sistema da consciência que só estaria ativado em termos de auto-consciência da personalidade na idade considerada, intervindo o mecanismo do Édipo.
Mas em todo caso, essa evolução na ciência que tornou o ego, enquanto correlato da auto-consciência como das capacidades epistêmicas e políticas desenvolvidas, assim resultado da formação narcisista infantil, não originário, resultou num esquecimento de que o inconsciente já havia sido conceituado em termos de memória pelo romantismo. Não obstante o romantismo realmente de fato postular uma originareidade da consciência. Porém se a essa originareidade fez deslocar a explicação dos fenômenos de sentido, inversamente a toda tradição conceitual que até aí a detinha na metafísica, antes dos estruturalismos mesmo a descoberta da psicologia atual não anulou o principal com este deslocamento, que é o pivô dos existencialismos ou filosofias da interpretação. Seja com for, entre humanismos ou estruturalismos, deveríamos, como o ciberneticista Von Foerster, já numa perspectiva pós-moderna, opor decisivamente máquina computacional e memória humana, pois só esta se reelabora, sendo bem irredutível a um simples banco de dados.
Inversamente, o virtual deleuziano em particular e pós-estruturalista em geral é conceituado maquínico por sua sistemática oposição à forma da subjetividade que seria derivada, não originária, isto é, inconsciente naquele sentido de um sistema formativo desejante psicanalítico. Já Lacan, contudo, insistia na oposição, visto que só os enunciados da linguagem dos seres humanos requerem interpretação, o que torna o derivado subjetivo menos opositivamente situável relativamente ao novo "fundamento" desejante inconsciente.
A questão porém revela alcance, mais que psíquico-subjetivo, antropológico-político, por isso que a psicologia nova estava relacionada a conceitos oriundos da antropologia da época que iniciando-se os trabalhos de campo na era neocolonial, revelavam os costumes tribais como os africanos ou sul-americanos, que foram então arrolados como narcísicos coletivistas, fases infantis anteriores à formação do ego epistêmico só plenificado na, e como a, modernidade ocidental. A perspectiva pos-estrutural desenvolvendo-se nas guerras de descolonização, visou resgatar o status dessas sociedades já ocidentalizadas, de modo que os estágios anteriores ao ego seriam não fases infantis ou narcísico-neuróticas, mas formas viáveis de existência como correlatos engramáticos de regimes de signos, ao invés de apenas formas de anterioridade de um único desenvolvimento normal.
Porém a contradição aí é como no deleuzismo. Primeiro, contradição conceitual, pois ao mesmo tempo a variação contínua possível é a dessas formas ante-moderno-ocidentais, possível porém somente ao ocidental visto que nelas mesmas são fixas e a-históricas como fórmulas semióticas do desejo, e a variação tornaria possível o super-humano nietzshiano (i.e. "pós-humano"), um produto da evolução porém já consciente de si mesma, assim dirigida a um resultado específico que seria a liberação da variação unicamente da vontade, logo, da vontade do humano oposta ao idealizado metafísico ou teológico, como o próprio Nietzsche enuncia.
Mas assim também contradição política, pois tanto a variação privilegia - ainda que desistoricizando, mitificando, etc. - os regimes ante-ocidentais, como que tem viabilizado projeções futuristas utópicas como a "teoria do cyborg" de Donna Haraway, conforme o seu Cyborg Manifesto (1985) cuja motivação feminista é ostensiva, porém relacionável, como também uma vertente atual da literatura designada "ficção científica teórica" a exemplo de Gibson e Bruce Sterling, à influência pós-estrutural nos USA. Cusset reporta essa influência em seu estudo notável intitulado "Filosofia Francesa" (Porto Alegre, Artmed, 2008, p.230, 231). Confome Cusset, na teoria de Haraway, "trata-se agora de assumir nossa dimensão de cyborg, ligada às novas tecnologias, e aos simulacros maquínicos, a fim de superar não apenas dois séculos de 'falsas separações' (entre humano e animal, máquina e organismo ou mesmo 'ficção científica e realidade social'), mas também o mito feminista de uma 'matriz natural da unidade' - a qual Harawy opõe o slogan que a tornará famosa..." segundo o qual ela afirma preferir "ser um cyborg a ser uma deusa".
Tudo isso "graças ao prolongamentos cibernéticos que nos oferecem o computador e a microeletrônica", permitindo o "devir-máquina" que validaria a superação da ontologia e dos naturalismos, originando o campo de "estudos cyborg" com a referência do "The cyborg handbook" de C.H. Gray et.alii (1995). Contudo, mesmo se aí devamos observar aportes importantes a integração social e política, assim como do plano subjetivo, no estado de coisas tecnizado da sociedade atual, teríamos assim, nos termos propostos, uma anti-natureza que serviria como a natureza mesma, pois a validar do exterior do pensamento, como um crivo metafísico no sentido de um puro dado factual, um seu produto teórico- conceitual.
Esse puro dado porém sendo muito impuramente a coisa mesma e a propaganda do capital multinacional que estabelece hoje a dominação info-midiática recolonizadora ou "globalização", ao contrário da intenção manifesta de personificar a contestação política mais eficaz por sem embasamento pós-metafísico. Algo que dificilmente se poderia considerar emancipatório hoje, algumas décadas após aquelas publicações lançadas antes da globalização. Uma vez que o computador se tornou o monopólio do programa massificado da multinacional, não obstante a terminologia do "personal" (computer), intrusável por todo interesse político-capitalista e/ou do banditismo, frustrando de todos os modos programáveis a liberdade de expressão para condicionar hábitos de total subserviência ao business de mídia. Liberdade que só temos exercido por resistência aos dispositivos, e por nossa formação cultural que antecede o domínio completo das possibilidades de escrita e letramento pelo capitalismo como tem sido feito na globalização - além de extorsão monetária e abusos de atendimento de todo tipo, avassalamento da privacidade, etc.
Por outro lado, se devíamos nesse contexto polêmico falar menos de "humano" que de "humanismo", se pretendemos nos manter na imanência do conceito, as teorias existencialistas que insistiram na oposição do cultural e do técnico, realmente tenderam a um paternalismo não menos totalitário que os regimes de signos deleuzianos, pois todos esses aportes teóricos não se relacionam com a antropologia pós-moderna em que a heterogeneidade, e a consciência da história já são reportáveis também dos povos não-ocidentais, assim como a ciência mesma especialmente as humanities tem sido produzidas planetariamente.
Assim são as questões da subjetividade em devir, naquilo em que já não redutíveis à da sociedade ("cultura" unitária) que retornam em bases mais desenvolvidas, o que tem tornado os estudos do romantismo interessantes aos propósitos, assim como a revisitação de Hegel, etc. A meu ver algo sumamente importante seria a compreensão do que torna irredutível do classicismo a-histórico ao romantismo, visto que muito da reificação culturalista-semiótica se relaciona a um pós-realismo-positivismo que do próprio realismo muito retem mesmo na forma da crítica, e como vimos o realismo e o classicismo tem pontos em comum na sua mútua ignorância das questões da subjetividade e reflexão - ou, já com Hegel, relações intersubjetivas - introduzidas porém com o romantismo historicizado.
Assim se repõe o inconsciente romanticista num pós-realismo contíguo às vanguardas modernistas, porém afirmando-se como momento crítico ao romantismo pela crença deste numa subjetividade originária. Com efeito, desde inícios do século XX a psicologia descobriu o interregno formativo da subjetividade, os três primeiros anos da vida infantil, somente após os quais coalesce a auto-consciência como sujeito independente dos outros sujeitos e dos objetos. Nas escolas de psicologia como de Wallon ou Janet, trata-se de compreender que estruturas são subjacentes ao "sub-consciente", somando-se até que possam resultar na consciência subjetiva, como a psicomotricidade ou as condutas. Na psicanálise de Freud o termo é "inconsciente" para designar um sistema de objetivação independente do sistema da consciência que só estaria ativado em termos de auto-consciência da personalidade na idade considerada, intervindo o mecanismo do Édipo.
Mas em todo caso, essa evolução na ciência que tornou o ego, enquanto correlato da auto-consciência como das capacidades epistêmicas e políticas desenvolvidas, assim resultado da formação narcisista infantil, não originário, resultou num esquecimento de que o inconsciente já havia sido conceituado em termos de memória pelo romantismo. Não obstante o romantismo realmente de fato postular uma originareidade da consciência. Porém se a essa originareidade fez deslocar a explicação dos fenômenos de sentido, inversamente a toda tradição conceitual que até aí a detinha na metafísica, antes dos estruturalismos mesmo a descoberta da psicologia atual não anulou o principal com este deslocamento, que é o pivô dos existencialismos ou filosofias da interpretação. Seja com for, entre humanismos ou estruturalismos, deveríamos, como o ciberneticista Von Foerster, já numa perspectiva pós-moderna, opor decisivamente máquina computacional e memória humana, pois só esta se reelabora, sendo bem irredutível a um simples banco de dados.
Inversamente, o virtual deleuziano em particular e pós-estruturalista em geral é conceituado maquínico por sua sistemática oposição à forma da subjetividade que seria derivada, não originária, isto é, inconsciente naquele sentido de um sistema formativo desejante psicanalítico. Já Lacan, contudo, insistia na oposição, visto que só os enunciados da linguagem dos seres humanos requerem interpretação, o que torna o derivado subjetivo menos opositivamente situável relativamente ao novo "fundamento" desejante inconsciente.
A questão porém revela alcance, mais que psíquico-subjetivo, antropológico-político, por isso que a psicologia nova estava relacionada a conceitos oriundos da antropologia da época que iniciando-se os trabalhos de campo na era neocolonial, revelavam os costumes tribais como os africanos ou sul-americanos, que foram então arrolados como narcísicos coletivistas, fases infantis anteriores à formação do ego epistêmico só plenificado na, e como a, modernidade ocidental. A perspectiva pos-estrutural desenvolvendo-se nas guerras de descolonização, visou resgatar o status dessas sociedades já ocidentalizadas, de modo que os estágios anteriores ao ego seriam não fases infantis ou narcísico-neuróticas, mas formas viáveis de existência como correlatos engramáticos de regimes de signos, ao invés de apenas formas de anterioridade de um único desenvolvimento normal.
Porém a contradição aí é como no deleuzismo. Primeiro, contradição conceitual, pois ao mesmo tempo a variação contínua possível é a dessas formas ante-moderno-ocidentais, possível porém somente ao ocidental visto que nelas mesmas são fixas e a-históricas como fórmulas semióticas do desejo, e a variação tornaria possível o super-humano nietzshiano (i.e. "pós-humano"), um produto da evolução porém já consciente de si mesma, assim dirigida a um resultado específico que seria a liberação da variação unicamente da vontade, logo, da vontade do humano oposta ao idealizado metafísico ou teológico, como o próprio Nietzsche enuncia.
Mas assim também contradição política, pois tanto a variação privilegia - ainda que desistoricizando, mitificando, etc. - os regimes ante-ocidentais, como que tem viabilizado projeções futuristas utópicas como a "teoria do cyborg" de Donna Haraway, conforme o seu Cyborg Manifesto (1985) cuja motivação feminista é ostensiva, porém relacionável, como também uma vertente atual da literatura designada "ficção científica teórica" a exemplo de Gibson e Bruce Sterling, à influência pós-estrutural nos USA. Cusset reporta essa influência em seu estudo notável intitulado "Filosofia Francesa" (Porto Alegre, Artmed, 2008, p.230, 231). Confome Cusset, na teoria de Haraway, "trata-se agora de assumir nossa dimensão de cyborg, ligada às novas tecnologias, e aos simulacros maquínicos, a fim de superar não apenas dois séculos de 'falsas separações' (entre humano e animal, máquina e organismo ou mesmo 'ficção científica e realidade social'), mas também o mito feminista de uma 'matriz natural da unidade' - a qual Harawy opõe o slogan que a tornará famosa..." segundo o qual ela afirma preferir "ser um cyborg a ser uma deusa".
Tudo isso "graças ao prolongamentos cibernéticos que nos oferecem o computador e a microeletrônica", permitindo o "devir-máquina" que validaria a superação da ontologia e dos naturalismos, originando o campo de "estudos cyborg" com a referência do "The cyborg handbook" de C.H. Gray et.alii (1995). Contudo, mesmo se aí devamos observar aportes importantes a integração social e política, assim como do plano subjetivo, no estado de coisas tecnizado da sociedade atual, teríamos assim, nos termos propostos, uma anti-natureza que serviria como a natureza mesma, pois a validar do exterior do pensamento, como um crivo metafísico no sentido de um puro dado factual, um seu produto teórico- conceitual.
Esse puro dado porém sendo muito impuramente a coisa mesma e a propaganda do capital multinacional que estabelece hoje a dominação info-midiática recolonizadora ou "globalização", ao contrário da intenção manifesta de personificar a contestação política mais eficaz por sem embasamento pós-metafísico. Algo que dificilmente se poderia considerar emancipatório hoje, algumas décadas após aquelas publicações lançadas antes da globalização. Uma vez que o computador se tornou o monopólio do programa massificado da multinacional, não obstante a terminologia do "personal" (computer), intrusável por todo interesse político-capitalista e/ou do banditismo, frustrando de todos os modos programáveis a liberdade de expressão para condicionar hábitos de total subserviência ao business de mídia. Liberdade que só temos exercido por resistência aos dispositivos, e por nossa formação cultural que antecede o domínio completo das possibilidades de escrita e letramento pelo capitalismo como tem sido feito na globalização - além de extorsão monetária e abusos de atendimento de todo tipo, avassalamento da privacidade, etc.
Por outro lado, se devíamos nesse contexto polêmico falar menos de "humano" que de "humanismo", se pretendemos nos manter na imanência do conceito, as teorias existencialistas que insistiram na oposição do cultural e do técnico, realmente tenderam a um paternalismo não menos totalitário que os regimes de signos deleuzianos, pois todos esses aportes teóricos não se relacionam com a antropologia pós-moderna em que a heterogeneidade, e a consciência da história já são reportáveis também dos povos não-ocidentais, assim como a ciência mesma especialmente as humanities tem sido produzidas planetariamente.
Assim são as questões da subjetividade em devir, naquilo em que já não redutíveis à da sociedade ("cultura" unitária) que retornam em bases mais desenvolvidas, o que tem tornado os estudos do romantismo interessantes aos propósitos, assim como a revisitação de Hegel, etc. A meu ver algo sumamente importante seria a compreensão do que torna irredutível do classicismo a-histórico ao romantismo, visto que muito da reificação culturalista-semiótica se relaciona a um pós-realismo-positivismo que do próprio realismo muito retem mesmo na forma da crítica, e como vimos o realismo e o classicismo tem pontos em comum na sua mútua ignorância das questões da subjetividade e reflexão - ou, já com Hegel, relações intersubjetivas - introduzidas porém com o romantismo historicizado.
Observando a surgência
da hermenêutica moderna com Schleiermacher e Humboldt, Carpeaux
delineia a cena instável que margeia as regiões passíveis de
limitar os já definidos classicismo e romantismo. É nessa costa
fluente - aí onde as formações pessoais desmentem as produções
efetivas, ambas não podendo, por sua vez, ser esclarecidas pela
referência biográfica da rede de relações pessoais - que se
instala, porém, com a maior nitidez, a questão da amplitude do
fenômeno romântico. Seus efeitos, como sua significação
histórica, não podem ser reduzidos à unidade, mas isso não
implicando – de forma alguma – qualquer veleidade comparativista.
Se um Byron e um Hugo
são referências delimitadoras do Romantismo tal como se costuma
apresentar nos manuais, um Voltaire e um Montesquieu podendo ilustrar
sem ambiguidades o classicismo, os intelectuais que se destacam na
transição ao século XX têm, quase que invariavelmente, uma
formação clássica. Como no exemplo de Hölderlin, o poeta
romântico por excelência, isso não permite que se situe a sua
produção. Assim também, Schleiermacher e Humboldt, homens cujo
círculo de amizades se define pela intimidade com os românticos de
Iena, e no caso específico de Humboldt, pela organização da
universidade de Hegel e Dylthey, em Berlim, são situados por
Carpeaux, na sua História da Literatura Ocidental, no volume consagrado ao classicismo (IV).
Mas isso não sem
esclarecer algo da complexidade da situação que envolve o hiato
entre a produção intelectual e sua recepção, ou mais
propriamente, sua percepção pelo público, ainda por aqueles que
não tinham contato direto com as obras, mas delas não podendo se
furtar de conhecer os aspectos inovadores, revolucionários e
desconcertantes.
Ocorre que o século
XVIII com toda a sua tensão e tremenda ambiguidade entre as luzes
clássicas e realistas como de um Dancour e Steele, na base da prosa de Jane Austen como dos semanários morais da burguesia, e as brumas do sentimentalismo e do pré-romantismo, só
agora se percebe o quanto espantou, de fato, ao burguês, mais
notavelmente o luterano afastado do centro dos acontecimentos, a
França. Em contraposição, Weimar surgiu a esse público ferido
pelo tempo com a aparência do refúgio calmo e incontroverso de uma
consciência esclarecida, sim, mas por algo mais próximo do sereno
bom senso do que pela vocação da crítica cáustica e
cientificista. Essa Weimar de fantasia é então, conforme o
diagnóstico de Carpeaux, pseudoclássica. Na verdade ela foi forjada
pela poesia de Schiller, pelas especulações religiosas que
inspiraram o ideal de uma educação da humanidade a Schleiermacher e
Humboldt, ou seja, por pessoas já contaminadas pelos influxos não
clássicos, cuja unidade, se não há, deveras, poderia ser ao menos
aproximada pelo viés de sua convergência à valorização da
história, a ponto de estabelecê-la como horizonte de toda
especulação e produção poética que assim se nacionaliza ao
voltar-se às suas raízes, ou seja, se torna, justamente, popular.
É certo que esse
intuito de penetração pública já parece subsistir em projetos
iluministas como a Enciclopédia; nem a transformação do papel do
intelectual, desde um tipo psico-social que vive à margem da nobreza
e do mecenato, àquele do profissional que vende seu produto, jornalista ou escritor, é
algo novo no momento romântico, surgindo, na verdade, no século
XVIII. Mas não há ainda a intenção do popular assim como se pode
designar após a voga do Romantismo, isto é, algo produzido para
certo povo, tendo ainda a veleidade de ter sido produzido, nele e por
ele, do que vem dele. O que alimenta a produção clássica é de um conteúdo
universal, internacional, indiferente, na verdade, às fronteiras ou
às tradições, hostil a elas até, como uma fórmula matemática ou
um enunciado fisiológico pretendem ser. A sabedoria clássica que
escorre pela sua poesia é desse feitio, o que vale, como as máximas
dos moralistas, em todos os tempos e lugares. Logo, é de um conteúdo
exclusivo, exigindo uma formação para ser alcançado.
Essa formação
clássica é contígua à Paideia grega. Ela não produz um certo
ideal de ser humano sem que dependa, para fazê-lo, já de um
enraizamento desse ideal como ideal, ou seja, de uma certa hierarquia
de classe profundamente estabelecida na existência social, o que
equivale a dizer, de uma concepção da legitimidade tradicional da
classe superior, de uma legitimidade da Nobreza. Não obstante, o
conteúdo dessa Paideia parece restar na exterioridade, não apela
ao sentir, mas à destreza e ao Saber. Isso se acentua no momento
moderno, pois no século XVIII o conteúdo do saber está sendo
gradativamente adequado à concepção de ciência objetiva.
A concepção
histórica que impede a continuidade do a priori clássico
desde o século XIX impõe uma formação de índole totalmente
oposta. Aquele horizonte indiferente da forma sempiterna sobre o
conteúdo local contingente, mutável, desaparece. São essas
mudanças, é o contingente relativo a tempo e lugar o que mais
importa. Não se trata, como Píndaro, apenas de inserir o colorido
local, o sabor das lendas e costumes imemoriais, portanto partilhados
pelo povo. Resta que aquilo que a poesia transmite vem de Outros tom e
estatura, são valores que consagram a espessura entre o que é
vulgar, comum, popular, e o que deriva de uma estirpe nobre. Na
poesia de Schiller o que se encontra, porém, é a modulação já
feita pelo influxo das raízes populares que singularizam uma
cultura, nesse momento não distinta fundamentalmente do ideal de
nação, o que abrange todas as classes num mesmo meio de tradições.
Vem por esse meio que
essa poesia contribui para conciliar o público burguês luterano,
relativamente iletrado, com a produção cultural do momento, o que
constitui uma das ramificações do espectro total dos efeitos e
significações do Romantismo. A esta se contrasta justamente aquilo
que ficou talvez como mais comumente associado ao espírito
romântico, o gesto byroniano, qualquer atitude extremada, de
motivação exclusivamente passional e entusiástica eivada, contudo,
de tédio e melancolia, logo, mantida à distância do comum e do
vulgar como convém à sua origem nobre. Ou o que, por sua vez,
também lhe é contrastante e igualmente difundido como etiqueta do
movimento, a vocação social hugoana tão tipicamente veiculadora
das aspirações utópicas, mas vistas como as mais sensatas, desde a
origem pequeno-burguesa.
Schleiermacher, sendo o pai da teologia moderna como salientou Luis Dreher, renovou
especificamente o luteranismo, não apenas o tornou menos suspeitoso da cultura através de uma poesia que ele podia compreender sem se
chocar. O dogma se substitui pelo “sentimento da dependência
cósmica”, na fórmula reproduzida por Carpeaux, que é o que
legitimamente impele e justifica à pertença a uma comunidade de
fiéis, estes agora sendo os que conhecem esse vínculo e partilham o
sentimento, não mais precisando definir-se como aqueles que
asseveram ou zelam pelo asseverar de certas verdades reveladas. A
Hermenêutica como “Arte e técnica da interpretação”,
como reza o subtítulo do volume traduzido no Brasil, não se poupa a
crítica bíblica mais rigorosa. Como tal, não pode deixar de se
inserir nessa corrente pós-iluminista de investigações marcadas
pela predominância da perspectiva histórica. Sua emergência
inscreve-se não apenas na tradição exegética da teologia
protestante, como ainda na ressurgência dos estudos de filologia
clássica, na segunda metade do século XVIII, ou seja, a mescla de
formação clássica e interesse “romântico” não deve assim ser
ignorada.
A hermenêutica se
considera já com Dilthey, a que veio de Schleiermacher, a base das
ciências histórico-filológica, ou seja, das ciências humanas,
conforme a apresentação do volume citado, por Celso Braida. Observa ele o que
acima estipulamos. A via dessa arte interpretativa é
especificamente inspirada pelo kantismo, que ao antigo ideal de
reconstituição de um sentido do texto que seria o original, ajunta
a exigência criteriosa da análise das condições gerais sob as
quais a compreensão ocorre, o que impele a fornecer as razões do
processo de interpretação.
É essa centralidade da compreensão, o que ela é e como opera, que estabelece o novo sentido às humanidades, isto é, que as dota com uma concepção ao mesmo tempo de sua generalidade, a amplidão dos seus horizontes, mas de um ponto de vista não meramente erudito e sim científico, justificado na sua validez, e de sua singularidade, do que as delimita em relação às ciências da natureza. Mas também é marcada pelo signo da unificação dialética de realismo e idealismo, de modo que o universal só deveria ser pensado junto ao particular, do mesmo modo que o ideal, ao histórico.
É essa centralidade da compreensão, o que ela é e como opera, que estabelece o novo sentido às humanidades, isto é, que as dota com uma concepção ao mesmo tempo de sua generalidade, a amplidão dos seus horizontes, mas de um ponto de vista não meramente erudito e sim científico, justificado na sua validez, e de sua singularidade, do que as delimita em relação às ciências da natureza. Mas também é marcada pelo signo da unificação dialética de realismo e idealismo, de modo que o universal só deveria ser pensado junto ao particular, do mesmo modo que o ideal, ao histórico.
Isso implica numa
hermenêutica da relatividade de todo saber ao horizonte do tempo,
uma vez que o saber é produto de um pensamento que Schleiermacher
antepõe inseparável da linguagem. Ora, não existindo linguagem
universal, a-histórica, a Relativität des Denkens, a
relatividade do pensar, vai implicar naquela descoberta do horizonte
de sentido como imanente à construção e coerência textual.
A sua teoria
hermenêutica inova, portanto, por não apenas esboçar uma lista de
regras de interpretação de textos antigos e clássicos, mas incluir
como o mais importante o fornecimento das razões pelas quais tais
regras são aplicáveis, o que depende de enunciar-se como teoria
autêntica da compreensão e da interpretação. Ou seja, nesse
momento ainda não se fornece um horizonte à ciência do humano sem
que este se comprove como filosófico.
Não creio que seja
negável a precedência dessa hermenêutica em relação à
concepção dialógica do texto que é a de Bakhtin. Pois
Schleiermacher já havia estabelecido que por Interpretação
devemos designar “a arte da compreensão correta do discurso de
um outro”, na fórmula citada por Braida. O Outro se torna
diferencial da compreensão do Mesmo, a espessura do sentido se
instala ali onde deveria ser a imediatez do universal, via linguagem,
o que se poderia esperar. Como vimos, é uma concepção dialetizada,
historicizada, de linguagem e de universalidade o que impele a esse
deslocamento da concepção do trabalho do intérprete.
No início de O
Problema do Texto, Bakhtin tangencia a conexão entre “definição
científica e crítica dos textos” com a emergência das
ciências humanas, ou seja, com “a história da filologia e da
lingüística”. Ele chega mesmo a estipular que entre
compreensão e explicação a diferença está em que a compreensão
implica “duas consciências, dois sujeitos”, o que é a
condição de possibilidade da produção e da recepção textual,
enquanto a explicação implica apenas uma única consciência, um
único sujeito.
No entanto, no
pequeníssimo trecho em que alude ao que poderia estar precedendo as
suas próprias descobertas, ele inclui uma notícia da evolução à
compreensão da existência do texto, não redutível ao simples
sistema da língua, a qual depende da superação do ponto de vista
exegético e da fé, como fundamental à produção do conceito de
compreensão, à recorrência dos textos não-sagrados. Ora,
parece-me mesmo que um dos pontos de apoio da articulação entre
continuidade e ruptura na consideração da modernidade depende de
mantermos o que há de fundador no romantismo nessa limitação
mística, quando o que se desenvolve após é o seu aproveitamento
numa pluralidade de atitudes que em comum mantém a independência do
objeto, a autonomia cada vez maior da região epistemológica ou da
criação artística.
É assim que a
hermenêutica de Schleiermacher, enquanto um exercício de
compreensão, conceitua a esta através de dois princípios de
reconstrução, histórica e divinatória, dos fatores objetivos e
subjetivos do discurso. Isso pressupõe, conforme Braida, que
inversamente à concepção iluminista de que a linguagem é uma
prática natural derivada da razão comum, nisso constando a sua
essência, de modo que o mal entendido a evitar é como que um
acidente, uma possibilidade que devemos e podemos impossibilitar,
Schleiermacher propõe que o mal-entendido é parte da produção do
discurso, de modo que a cada ponto a compreensão precisa ser
suportada por um exercício metódico, voluntário e consciente. É
assim que Braida mostra esse princípio como expressando “uma
dúvida metódica” acerca da possibilidade da comunicação
linguística, enquanto Bakhtin cunhou a expressão “nascimento da
dúvida” para designar a origem de uma teorização cujo objeto é
o texto enquanto produtor de sentido. O importante aqui é que a
interpretação deixa de ser identificada como um produto natural da
interlocução, devendo então ser justificada a cada passo, por aí
a sua designação em termos de método interpretativo, propriamente hermenêutico.
Ora, o divinatório
aponta, aparentemente, para aquela redução do horizonte de
interpretação à destinação do texto clássico ou sagrado.
Contudo, o que ele efetivamente assegura é a insuficiência da
análise histórica que cuida da recuperação objetiva do discurso,
ou seja, repõe as condições linguísticas de sua produção. O
divinatório deverá, inversamente, contextualizar a palavra, de modo
que seu sentido dependerá não apenas da forma do discurso, mas da
coerência produzida pelo texto. A determinação do sentido nesse
aspecto depende da suspensão da crença de que alguma parte do texto
tenha autonomia, um sentido em si mesmo, como também da suspensão
da descrença na plasticidade dos termos conforme sua inserção no
meio contextual. O que se apreende em termos de Conceito, como
sentido, pelo contexto, é o Sinn, oposto ao significado
isolado, abstrato, ou Bedeutung.
Outrossim, o
divinatório se distingue da comparação, desde que surge o aspecto
da individualidade do autor, seu estilo próprio agora não mais
suposto como derivando de qualquer cânon a priorístico, e
sim como inteiramente imprevisível, original. A comparação seria
um instrumento para fornecer, por contraste, algo da individualidade
do estilo, da situação do autor, enquanto o divinatório o atinge
na particularidade da leitura, na sua imediatez. A comparação
fornece assim uma base segura para a fluidez da adivinhação pelo leitor daquilo que está só no espírito do autor.
Ao longo do século
XIX o comparativismo fornecerá o critério de inteligibilidade
apropriado à visão histórica que logo se dobrará no
evolucionismo. Ocorre que não se dispõe de outro meio de conceber a
evolução além de graus de perfeição que devem ter sido
percorridos para chegar ao estado atual que só se define como meta,
telos de tudo o que ocorre anteriormente. É divertido hoje ler as
expressões de Engels como “o bárbaro superior”. Naturalmente se
pode prever que tal concepção comparativista não se mantém quando
as coisas se mostram mais complexas, desde a transição ao século
XX, mas como já assinalamos a posição do ocidente evolutivo psicossocial continuou preponderante como a questão central das teorias em ciências humanas. A polissemia romanticista dos valores, onde a descoberta anticlassicista da irredutibilidade cultural se compensa pela crença na originareidade do Sujeito, é quanto a isso o momento ímpar na modernidade.
Também Braida nota
que, não obstante a influência óbvia, a hermenêutica de
Schleiermacher se distingue das concepções de Dilthey, Heidegger e
Gadamer nisso pelo que somente aquele a supôs como uma teoria da
compreensão exclusivamente de expressões linguísticas, mesmo
entendendo-as como discurso, não simples generalidades de linguagem.
Aqui ocorre algo de curioso, pois que o objetivo de compreensão da
produção do discurso tivesse sido considerada como uma apreensão
empática da intenção do autor, isso configurou uma
descaracterização da preocupação autêntica de Schleiermacher em
manter a linguagem como mediação exclusiva da Interpretação,
Braida tendo o cuidado de assinalar a vinculação desse vezo com a
época da formulação da obra. Contudo, ainda assim se pode,
conforme ele, aceitar que a hermenêutica por esse meio
caracterizada, finalmente, se propôs como uma compreensão do autor,
não apenas “do texto enquanto texto”, isso, inclusive,
determinando “o enfoque teórico” dessa “hermenêutica
romântica” como psicológico.
Eis porque, a meu ver,
o divinatório se revela de tanta importância para compreender a
inserção da originalidade de Scheleirmacher. Seria algo que depende
de uma concepção de comunidade de sentido, sendo os valores,
enquanto Ideias manifestas no seu desenvolvimento histórico, no que
se concebia então como a vida do espírito, nem por isso menos
absolutamente universais. Não há aqui nenhuma desconfiança quanto
à possibilidade de recuperação, ainda que metódica, da plenitude
da comunicação intersubjetiva. O divinatório é revelador, como
uma visão, de arquétipos transcendentes, ainda que estes não
possam ser a qualquer momento e lugar, mas pertençam, se enraízem,
na fonte de sua proveniência cultural.
Não há suspeita do
círculo do fundado e da fundação, como nos outros autores
considerados, tão somente a dúvida incide sobre a espessura –
filológica, histórica, estilística, contextual – do discurso. O
que poderia haver de surpreendente nisso - já que se trata no
pensamento de Schleiermacher, da negação de qualquer linguagem
universal, de modo que o conceito de uma circularidade, seja porque
cada linguagem comparte previamente o que pode ser dito, seja porque
essa partição atinge a formação dos conceitos e juízos, creio
estar contrabalançado pelas designações de M. Frank e
Schnädelbach. Frank define o empreendimento hermenêutico de
Schleiermacher como uma reflexão transcendental que historiciza e
linguisticiza o transcendental kantiano, e Schnädelbach o considera
como uma “historicização da filosofia transcendental”, ou
“transcendentalização da razão histórico-hermenêutica”.
O elemento que inseri
como universal pode assim ser estipulado como Razão, no sentido
dialético de modo que a hermenêutica não se afasta de uma
atividade lógico-especulativa. Em Schleiermacher, esse nível da
especulação que é racional, é irredutível ao da intuição
(Anschauung) do sentimento (Gefühl) religiosos, ou da imaginação
artística que é porém o mais ressaltado pelos românticos. É verdade que somente os elementos do religioso podendo
atingir o absoluto.
Ora, a limitação histórico-linguística hermenêutica da especulação, por um lado não esgota o espírito que permanece destinado ao absoluto, mas também se mantém ela mesma numa relação entre particular e universal, de modo que o particular nunca deixa de manter algo que o ultrapassa no sentido do universal, e por aí o sentido dialético- progressivo do saber que fornece a justificativa dessa hermenêutica. Esta apreende a exposição do particular, mas o que ela limita, a dialética ou elemento universal, é para aquilo que aponta como o plano ideal-formal que toda particularidade histórico-linguística pensa, ainda que ao seu modo.
Ora, a limitação histórico-linguística hermenêutica da especulação, por um lado não esgota o espírito que permanece destinado ao absoluto, mas também se mantém ela mesma numa relação entre particular e universal, de modo que o particular nunca deixa de manter algo que o ultrapassa no sentido do universal, e por aí o sentido dialético- progressivo do saber que fornece a justificativa dessa hermenêutica. Esta apreende a exposição do particular, mas o que ela limita, a dialética ou elemento universal, é para aquilo que aponta como o plano ideal-formal que toda particularidade histórico-linguística pensa, ainda que ao seu modo.
Aqui, portanto, o
estatuto do sagrado invadiria até mesmo o texto mais mundano, desde
que produto autêntico de uma cultura. O estatuto do autor é este,
menos psicológico do que propriamente hermenêutico, ou seja, o
“autor”, novamente um Vate, é veículo, mas agora feito
originalidade do tempo na vicissitude de sua situação e lugar, de
um caminho de revelação ideal, aquele desse povo, dessa
proveniência. Mas tudo isso só escoa na e pela linguagem, o que
permite fundar, ao mesmo tempo humano e objetivamente, a ciência do
espírito por uma filosofia cujas bases são absolutas, isto é,
igualmente determinadas por categorias definidas do discurso. É “a
intuição metafísica de todo real como pensante”, conforme a
expressão de Benjamin acerca dos primeiros românticos, intuição
metafísica, isto é, inevitavelmente mística e religiosa, o que
subjaz à assinalada limitação do horizonte de interpretação.
Bréhier irá unir essa metafísica mística, desde os Swedenborg mais ou menos inspirados no predecessor Jacob Bohéme até a teosofia de Schelling, à modernidade, porém, mostrando-se mística endereçada por um suporte científico, a física das forças, descoberta do eletromagnetismo imprevisto pela ciência classicista, tanto como o evolucionismo. Trata-se pois da revolução pela qual a ação se torna interna à natureza, após toda a tradição metafísica da oposição do ativo espiritual e passivo material.
Algo similar à interpretação mística da física atual, desde que os saltos quânticos indeterminista pareceram um limite ao racionalismo. Porém, se ao invés de um ímpeto subjetivo do universo como os românticos e místicos atuais entenderiam, atribui-se o lugar do paradoxo e do imediato, o irônico é que como em Capra, isso sendo suposto como de todo incoativo à trajetória intelectual do Ocidente e só tradutível por formas místicas orientais como o Taoísmo. Já Hegel em seu escrito sobre a História referencia o Tao, ao fazer alusão à proposta então existente de universalização dos valores da moral e da filosofia, de modo que taoísmo, eleatismo e espinozismo por exemplo seriam o mesmo, enquanto Hegel pretende por História especificar o processo evolutivo do vir a ser da autoconsciência do Espírito como Sujeito. Assim de modo que cada cultura expressa, ao mesmo tempo que como um sistema ao invés de justaposição de noções, um degrau na evolução, Hegel poderia porém, a meu ver, observar que a universalização não se opõe a autoconsciência, como em Heidegger, pois ser o mesmo como autêntico ou ante-metafísico é algo irredutível a saber que é o mesmo e nesse status. Hegel se opõe tanto à universalização como ao que hoje considera-se pós-moderno, o que ele chama "história crítica", ou "história da historiografia" com o principal sendo antes que apresentar a história, "a avaliação de narrativas históricas e o exame de sua verdade e confiabilidade". Mesmo assim os textos de Hegel, pelo fato de serem o substrato das inversões posteriores como de Marx e Nietzsche, grandemente interessantes ao pós-moderno, como observou Robert Williams, enquanto uma crítica da modernidade.
Com o Romantismo, também o dualismo cartesiano se torna superado na psicologia de Biran, metonímica a concepção geral e mística da época, onde se trata do organismo em que, como na teoria da percepção, fenômenos intelectivos estão suportados por processos físicos, mas também da duplicidade espiritual do intelecto racional e do espírito cultural.
Bréhier irá unir essa metafísica mística, desde os Swedenborg mais ou menos inspirados no predecessor Jacob Bohéme até a teosofia de Schelling, à modernidade, porém, mostrando-se mística endereçada por um suporte científico, a física das forças, descoberta do eletromagnetismo imprevisto pela ciência classicista, tanto como o evolucionismo. Trata-se pois da revolução pela qual a ação se torna interna à natureza, após toda a tradição metafísica da oposição do ativo espiritual e passivo material.
Algo similar à interpretação mística da física atual, desde que os saltos quânticos indeterminista pareceram um limite ao racionalismo. Porém, se ao invés de um ímpeto subjetivo do universo como os românticos e místicos atuais entenderiam, atribui-se o lugar do paradoxo e do imediato, o irônico é que como em Capra, isso sendo suposto como de todo incoativo à trajetória intelectual do Ocidente e só tradutível por formas místicas orientais como o Taoísmo. Já Hegel em seu escrito sobre a História referencia o Tao, ao fazer alusão à proposta então existente de universalização dos valores da moral e da filosofia, de modo que taoísmo, eleatismo e espinozismo por exemplo seriam o mesmo, enquanto Hegel pretende por História especificar o processo evolutivo do vir a ser da autoconsciência do Espírito como Sujeito. Assim de modo que cada cultura expressa, ao mesmo tempo que como um sistema ao invés de justaposição de noções, um degrau na evolução, Hegel poderia porém, a meu ver, observar que a universalização não se opõe a autoconsciência, como em Heidegger, pois ser o mesmo como autêntico ou ante-metafísico é algo irredutível a saber que é o mesmo e nesse status. Hegel se opõe tanto à universalização como ao que hoje considera-se pós-moderno, o que ele chama "história crítica", ou "história da historiografia" com o principal sendo antes que apresentar a história, "a avaliação de narrativas históricas e o exame de sua verdade e confiabilidade". Mesmo assim os textos de Hegel, pelo fato de serem o substrato das inversões posteriores como de Marx e Nietzsche, grandemente interessantes ao pós-moderno, como observou Robert Williams, enquanto uma crítica da modernidade.
Com o Romantismo, também o dualismo cartesiano se torna superado na psicologia de Biran, metonímica a concepção geral e mística da época, onde se trata do organismo em que, como na teoria da percepção, fenômenos intelectivos estão suportados por processos físicos, mas também da duplicidade espiritual do intelecto racional e do espírito cultural.
Mas seria sobretudo
esse tipo novo do Autor que interessa notar, pois ele não é apenas
o profissional que emerge de uma contingência prática. Nesse ponto
re-encontramos a polaridade Goethe-Hölderlin, sendo este último
que, conforme Benjamin, enuncia o mais claramente o que está
envolvido na formação do artista romântico. Trata-se de algo
enfeixado sob a rubrica conceitual da Sobriedade. Na verdade,
ocorre a emergência da autonomia da Arte como essa somação de
saberes técnicos, específicos, que correspondem ao conteúdo de um
ofício “mecânico”, isto é, transmissível, ensinável. O
inverso da mania ou êxtase platônicos, correlato da contemplação
de uma realidade irredutível à matéria, pois ao conceito de
reflexão é aquele de clareza que a sobriedade vincula.
Não se trata de algo
menos “sagrado”, porém. O que ocorre é somente que por
sacrossanto não se tem mais uma realidade separada da matéria, mas
o processo material da sua realização, o correlato sendo a forma
não mais entendida ao modo da atualização de um modelo, a mera
aplicação, como impressão demiúrgica, de um cânon. Esse conceito
de forma no romantismo torna-se especialmente complexo.
Benjamin se detém,
quanto ao conceito Hölderliniano de “sobriedade”, como no ponto
máximo de inflexão da filosofia romântica, algo que ele considera
“em essência totalmente novo e ainda incalculavelmente ativo”.
Rastreia-o em F. Schlegel e Novalis, e até no “a-filosófico”
W. Schlegel. Também o re-encontra, basicamente o mesmo, nos
parnasianos e no círculo de George. Parece compreender nele algo que
não mais deixou de estar presente “no espírito mesmo do
desenvolvimento da arte” desde sua formulação no romantismo.
E nesse vértice conceitual se projetam várias linhas de revolução
estética, a que diz respeito ao autor, à forma, à tradição, à
formação e à crítica.
Enquanto essência da
arte a sobriedade a determina como um ofício especializado. O autor
é, assim, autenticamente “poeta” (de poiese, produzir),
autenticamente um produtor, alguém que faz. A arte é para ser
feita, não ocorre como num devaneio ou no entusiasmo, não é o
resultado de um arroubo, um gesto para fora de si mesmo.
Inversamente, a forma realizada, sendo indestrutível como algo
eterno, contém um trabalho do negativo que pertence à ironia, a
saber, a destruição de tudo o que é destrutível nela. A formação, porém, não é a decoreba de receitas
ou “formas” no sentido de metros, esquemas de rima ou descrições
de gêneros. Corresponde a uma imersão na cultura, na compreensão
do devir histórico da irredutibilidade desse lugar ao geral. De uma absorção
de modelos temos o salto para o domínio da história da arte, de
onde a oportunidade da realização artística erigir-se como diálogo
crítico com tudo o que já foi feito até aqui.
Logo, não se pode
esperar da forma um ideal de beleza ou a imitação dos clássicos.
Que pode ser a forma? Ela é o gesto do autor profissional, isto é,
iniciado nesse domínio de saber. Gesto que só pode ser
absolutamente original resultando do encontro de um sentimento ou
impulso pessoal, que por sua vez só pode ser atual, ligado à
experiência do mundo, suscitado, contudo, exclusivamente por esse
domínio da história da arte e seus recursos de composição,
encontro que é o instalar-se no horizonte transcendental da poesia
para aí encenar como que um juízo estético sobre a articulação
mais conveniente das “formas” conhecidas, no sentido mais comum
do termo como espécimes ou gêneros, para estender a amplitude do
gesto, de algo o mais próximo possível de um conceito, uma ideia
sobre o todo do domínio.
Mas domínio jamais
atingido totalmente, sempre a conquistar. A concepção do progresso
romântica não é a de um tranquilo suceder consequente do tempo, cujo
detalhe faz o modelo do todo, ou seja, que se estende pela
contingência dos fatos singulares, mas de uma realização infinita,
sem pausa, que corresponde à da própria humanidade. Como vimos,
não se pensa a história no vazio de um devir desligado, mas como
saltos qualitativos de um “processo de devir”.
Portanto, a
necessidade da crítica impõe-se como a de um instrumento de
captação de certa frequência de onda.
Para Goethe não existe essa necessidade, pois a obra se é forma, esta se expõe na transparência absoluta do modelo. Seu critério não pode depender de nada mais, portanto, tudo o que há na forma é a fruição do que ela é, a contemplação. A obra clássica realiza o ideal da serenidade da contemplação, como a dialética platônica devia repousar no vislumbre da Ideia, identidade absoluta.
Para Goethe não existe essa necessidade, pois a obra se é forma, esta se expõe na transparência absoluta do modelo. Seu critério não pode depender de nada mais, portanto, tudo o que há na forma é a fruição do que ela é, a contemplação. A obra clássica realiza o ideal da serenidade da contemplação, como a dialética platônica devia repousar no vislumbre da Ideia, identidade absoluta.
Para os românticos a
crítica não vai “formar” o leitor, o público, o que somente
lhe poderia restar na concepção goetheana, ou seja, mostrar
discursivamente o que é o modelo que a forma realiza na intuição.
Ainda que pareça descortês, como notou F. Schlegel, nada se pode fazer.
Seria mesmo impossível, porque a forma não preexiste à operação,
à elaboração – já não se poderia dizer somente “a obra” –
do autor, ao seu gesto criador.
O que a crítica deve fazer e faz é desvelar esse gesto atuante e vivo sob os indícios da aparência quase que certamente desconcertante do seu resultado. Essa crítica é mesmo reclamada pela existência da obra. E a tradição que se tornou cultura, repositório das raízes culturais, complementa o rol de conhecimentos básicos desse novo profissional que é o artista moderno, de modo que o meio no qual ele atua se constitui cada vez mais específico, restrito, ao mesmo tempo em que seu atuar adquire uma amplitude, um alcance, jamais suspeitado até então, transcendendo o mero culto acadêmico-esteticista do virtuosismo.
O que a crítica deve fazer e faz é desvelar esse gesto atuante e vivo sob os indícios da aparência quase que certamente desconcertante do seu resultado. Essa crítica é mesmo reclamada pela existência da obra. E a tradição que se tornou cultura, repositório das raízes culturais, complementa o rol de conhecimentos básicos desse novo profissional que é o artista moderno, de modo que o meio no qual ele atua se constitui cada vez mais específico, restrito, ao mesmo tempo em que seu atuar adquire uma amplitude, um alcance, jamais suspeitado até então, transcendendo o mero culto acadêmico-esteticista do virtuosismo.
Essa “razão
mecânica” capaz de instituir o gesto mais original e criativo
sobre uma base de sobriedade que lhe permitirá auto-apreender-se –
e o gesto, nele mesmo, já é crítico – convém admiravelmente com
a culminância de todo um processo de legitimação do saber em curso
nessa época. Ela não se endereça senão ao entendimento, ou seja,
se impõe como formação no sentido que hoje nos é mais usual do
termo, integração de conhecimentos necessários ao exercício de
uma arte ou ofício.
A organização
universitária de Humboldt exemplifica essa planificação geral do
conhecimento num meio social que deve, cada vez mais, lidar com ele
como com uma autoridade sancionada, um lugar como que oficial da
enunciação e propagação da Verdade. Em O Pós-Moderno, Lyotard
fornece uma descrição sucinta do trabalho de Humboldt que se
desencadeou pela incumbência, solicitada pelo Ministério prussiano,
de optar entre os projetos educacionais opostos apresentados ali por
Fichte e Schleiermacher.
A opção pela
proposta deste último testemunha aparentemente uma preferência pela
posição mais liberal, mais propícia à imagem dos saberes como
produções autônomas, obedecendo a esquemas de formação
específicos e desenvolvendo-se conforme suas necessidades imanentes.
Mas Lyotard argumenta que envolto nesse discurso, o que a legitimação
do saber universitário na Alemanha dessa época estava logrando era
a fundamentação de um relato subversivo em relação àquele
construído pelo Auklärung classicista, e, inversamente ao que as aparências
sugerem devido à perseguição napoleônica aos remanescentes
daquela escola, fielmente observado pela política imperial na
França.
A narrativa de
fundamentação do saber revolucionária traçava a este um caminho
amalgamado ao do povo, no sentido de ser um “relato das liberdades”
na expressão de Lyotard, por povo aqui entendendo-se o sujeito da
cidadania, o elemento integrante da sociedade, o súdito do Estado.
Não se trata, portanto, na concepção de Lyotard, de uma identidade histórica e cultural como
no romantismo, e sim política. Ora, no relato das liberdades o
sujeito do saber científico é esse povo, essa identidade política
e anônima que tão bem se presta ao papel de sujeito da consciência
como sede da razão universal. O que se imiscui entre essas duas
entidades, povo e saber, só pode ser considerado como o ilegítimo,
o tirânico – o padre ou o poderoso.
O relato que emerge
com o romantismo, porém, baseia-se numa independência ou autonomia
do Saber em relação a tudo o que lhe é extrínseco, incluindo o
povo na acepção política do termo, isto é, como sujeito social. A
razão da preferência de Humboldt por Schleiermacher reside em que
no projeto deste busca-se mais “a ciência em si mesma”,
sem que a esta se atribua qualquer “cerceamente nem finalidade
determinada”. Mas Lyotard aponta o que resta controverso nessa
posição, pois ao mesmo tempo a universidade se incumbe de remeter o
que produz, a ciência, “à formação espiritual e moral da
nação” na fórmula de Humboldt. Ora, indaga Lyotard, essas
duas coisas, o execício autônomo de um ramo de saber e a
espiritualidade-moralidade, são justamente o que se está separando
quando se faz opção pela autonomia do exercício científico e se institui
a universidade como o seu lugar. Como é que a especulação, tornada
independente, pode ainda requerer-se como fonte de formação do
caráter e da ação?
Ocorre que esse
projeto nascido na Alemanha é o que se adota geralmente, mesmo nos
Estados Unidos, no século XIX, até hoje não deixando de
influenciar um certo censo comum acerca da organização
universitária. Como compreendê-lo? Constatamos, inicialmente, uma
ressonância do que Lyotard nomeou em termos de “metanarração
racional”, o fundamento discursivo não mais político-estatal
e sim especulativo, isto é, filosófico, dos saberes autônomos, e a
“razão mecânica”, no
sentido exclusivo de ser informada por uma competência técnica,
que como vimos garante a sobriedade do artista romântico.
A base dos ofícios, e
isso tanto mais quanto forem superiores no sentido de intelectuais,
não se endereça senão ao entendimento, como um corpo de
conhecimentos e técnicas obrigatoriamente partilhadas por uma
comunidade de saber. Mas esses conhecimentos dispersos só são
conhecimentos por estarem previamente unificados pela especulação,
o “espírito especulativo” que os dispõe como tais.
Já a especulação ou
filosofia detém esse status tão eminente por seu conúbio com o que
Humboldt designava o Espírito e Fichte chamava Vida, ou seja, tudo o
que o idealismo alemão vai poder localizar em termos de capítulo
relevante e incluível na história universal da humanidade. Entre
Fichte e Schleiermacher vemos que de fato, inversamente a uma predisposição que ainda se poderia considerar metafísica como "doutrina" até um neoplatonismo que a seguir fica explícito na carreira de Fichte, só Schleiermacher amplia as faculdades no sentido da autonomia da ciência. Mas para Lyotard a escolha parece entre exemplares de uma mesma espécie, e ele torna o
círculo assim evidente, ele ajunta o que sela a dinâmica desse jogo
de linguagem, o fato de que o deslocamento do relato de legitimação
político se fez pela emergência de um sujeito da história que não
é nenhum homem de Estado, nenhum cientista, nenhum cidadão, mas um
meta-sujeito “em vias de formular tanto a legitimidade dos
discursos das ciências empíricas, como a das instituições
imediatas das culturas populares”. Finalmente, só a
pós-modernidade seria o momento em que se fragmenta a unidade
especulativa do saber, de modo que o relato esquecido da
fundamentação política volta à cena na atualidade pelas mãos do
sujeito concreto cuja epopeia não é a de uma conquista ou
descoberta da Ideia, mas “a de sua emancipação em relação a
tudo o que o impede” de autogovernar-se.
Nesse ponto ao menos,
ao que parece, é que o Romantismo veio a convir com a sua própria
fable convenue. A crítica romântica revela, adivinha como em
Schleiermacher, o gesto do autor. Mas este, na sua singularidade e
originalidade mesma, ou seja, na sua relatividade do manifestar, o
que revela é o universal, o momento da Vida do Espírito, conforme
a expressão de Hegel, somente vindo a coalescer o absoluto de um
Valor ou de um Ideia. É assim que todo esse tópico convém ao exame
daquela significação do romantismo como um meio pelo qual
concilia-se a produção intelectual e sua recepção social.
A poesia sturmer
e pré-romântica de Schiller, como o que veio a ser autenticamente o
apanágio do romantismo, não importando o quanto foi recebida como
clássica, nem mesmo o quanto o próprio classicismo se aburguesou,
ou seja, serviu como etiqueta do que nunca foi, ensinou a burguesia a
agir heroicamente, isto é, conforme valores do espírito. É preciso
ver, o que mostra Carpeaux, que aquilo que ainda no século XVIII era
a pequena burguesia, no século XIX, pela revolução econômica que
conduziu à Revolução Industrial, tornou-se grande burguesia. A
esta precisava ser ensinado o que a classe anteriormente detentora
da hegemonia em sentido gramsciano, a nobreza, sabia desde o berço,
o gesto grandiloquente não na aparência, sóbria e “correta”,
mas na motivação de corresponder ao que a humanidade tem de maior. Mas assim, nessa época em que a Alemanha recorre ao Romantismo como antídoto contra a crítica realista seja ao capitalismo, seja ao que se atribui como idealismos sustentáculos da crença liberal, não porque a Alemanha fosse liberal mas porque desejava um tipo de justificação do regime nacional oposto ao inglês, o que ocorria era a rearistocratização das mentalidades na Europa em vias de encetar a corrida neocolonial.
Se o Romantismo é, inversamente, a nacionalização do liberalismo, na era dos impérios neocoloniais a rearistocratização da hegemonia, a assimilação da grandeza nobre, era
franqueada ao burguês, “luterano de sempre, súdito submisso do
Estado e pensador de liberdade ilimitada”, como nas fórmulas
religiosa de Schleiermacher e universitária de Humboldt. Essa
mistura de racionalismo, sentimentalismo, Sturm und Drang, -
finalmente, Romantismo, o que Carpeaux não revela ainda no volume
IV, mas que será a dedução óbvia da leitura do volume V –
lançou a recepção literária na via do que hoje se compreende como
tal, recepção de massas cujo sujeito consumidor é o povo e os
pequenos intelectuais.
O importante, porém,
é indagar sobre o salto qualitativo do Romantismo, nessa progressão
à universalização humanista do Valor. Há algo de aparentemente
paradoxal aqui, já que a consecução filosófica desse projeto,
tanto em Hegel quanto nos teóricos de arte românticos, só ocorre
por meio da descoberta da espessura dos domínios, da quebra da
transparência da razão clássica, descoberta que parece enunciar-se
como a do horizonte do sentido. Através da leitura de Lyotard,
porém, fica bem claro o quanto a estipulação da espessura não é
ainda a evidenciação do círculo. E por aí se situa o caráter
tantas vezes reacionário do romantismo. Mas também algo de sua
perenidade modernidade.
Inicialmente porque
com isso se estabelece a relação entre Estado e Saber pela qual
este só se põe como fundamentação da legitimidade daquele na
medida em que o legítimo que o Saber veicula é algo externo ao
vínculo político, é a veiculação da Verdade. Seja o heideggeriano domínio da técnica sobre o planeta, seja,
conforme Lyotard criticando Heidegger, a possibilidade de um - desde a
raiz espiritual-nacionalista que tem na Universidade a sua missão
histórica. Mas também, vejamos a posição de Benjamin. Não seria
romântica enquanto ele procura recuperar uma Erfährung
possível somente pela homogeneização – universalização – do
sentido, mesmo se relativa?
Precisamente essa
questão se coloca por Lyotard. O marxismo oscilou historicamente, a
seu ver, entre os dois relatos de legitimação. O Partido, ao
substituir a Universidade como o proletariado ao povo e o
materialismo dialético ao idealismo especulativo, resulta a posição
que exacerbando-se configura o estalinismo: todo o saber e as
ciências só existem enquanto “citação do meta-relato da
marcha para o socialismo como equivalente da vida do espírito”.
Já a postura da Escola de Frankfurt iria equivaler à pretensão de
dotar o sujeito de autonomia, a ciência como crítica estando aí
para emancipá-lo. Mas seria preciso focalizar bem o que se está
conceituando em termos de autonomia. Parece haver uma impossibilidade
de se livrar da experiência da perda da imagem da verdade e da
palavra – a mensagem do Imperador na citada fábula – como sendo
uma experiência de negatividade.
O mais importante a
indagar, a meu ver, é se a esperança de novos sentidos a serem
produzidos, já que não existe mais uma totalidade como mensagem
definitiva para transmitir, “somente trechos de histórias e de
sonhos”, na expressão de Gagnebin, na postura crítica da Escola
de Frankfurt, não subentende sempre um pensamento do todo nomeado em
termos de desenvolvimento dialético. É assim que, não obstante a
multiplicidade que pode parecer se estabelecer no próprio âmbito da
teoria crítica, conforme Horkheimer, somente ocorre uma inversão.
Aquilo que a “teoria
crítica” almeja como superação “das relações sociais que
emperram atualmente o desenvolvimento social” pôde ter sido
visada ao modo de uma situação pré-determinada, de um modo
não-dialético. Nessa retórica, contudo, o autenticamente crítico
seria tratar “abolição” e superação como conceitos
dialéticos, de modo que não somente a economia, mas também a
cultura, mais geralmente todos os aspectos que se podem agrupar,
devem ser relacionados para que aquilo que deve ser superado devido à
sua situação atual de progressivo desmantelamento da tradição seja considerado
nada menos do que como um Mundo, algo como um todo porque regido por
um “princípio de organização”, ainda que ultrapassado,
daí a consequência da necessidade de sua superação.
O que implica sem
dúvida que o que se precisa criar tenha a consistência desse todo,
a superação consistindo num novo todo, somente regido por algum
princípio mais adequado da superação, até a superação mesma como o princípio, não importa. A visão dialética antepõe que esse
princípio não está pré-determinado como valor ou ideia – uma
“Verdade” – platonicamente vislumbrável por qualquer operação
especulativa, mas é coerente com o devir histórico, de modo que a
cada vez é uma, não outra, a “natureza” do todo ao qual o
princípio ao mesmo tempo convém e do qual deriva a sua enunciação.
E dessa anteposição deriva o seu sentido revolucionário, não
idealista, crítico. A contraposição aqui pode somente visar-se
entre o crítico e o dogmático, isto é, entre uma concepção de
unidade ou universalidade estática ou dialética.
Mas não seria ainda
aqui o lugar de se descrever, primeiro, o processo histórico de
deslegitimação que tem lugar ao longo da evolução capitalista,
logo depois a problemática que cerca o esgotamento dessa
contraposição “crítica”, isto é, mostrar tudo o que tal
dilema ignora. Não omitindo, mesmo agora, que essa tarefa teria que
retomar as críticas de Benjamin a F. Schlegel, geralmente conexas ao
fato deste não ter expurgado totalmente a teoria da terminologia
transcendental, por aí tangenciando-se o que a crítica kantiana
finalmente não pôde fazer, malgrado ela mesma e sua necessidade de
unidade deixar de implicar e que Benjamin permitiu ficar inteiramente
silenciado, somente mais tarde tudo isso se mostrará a propósito.
Se o momento que nos ocupa conduziu para a implicação dialética, e
desta à démarche do marxismo, os sinais dos tempos já exigem que
se enfoque a emergência do Realismo.
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Este blog foi elaborado com letra grande, a letra menor denuncia intromissão de desconhecidos contra a intenção da autoria.
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